Moda

Moda e arte no trabalho de Fernanda Yamamoto

by Marta De Divitiis
2 de ago de 2019

A paulistana Fernanda Yamamoto iniciou sua marca em 2007, abrindo sua primeira loja homônima em 2009 no bairro Vila Madalena, em São Paulo. No mesmo espaço funciona seu ateliê, que hoje conta com 13 funcionários. Formada em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas, Yamamoto tem um trabalho bastante autoral, no qual a modelagem se destaca pelas formas fluidas e pelas dobraduras que remetem ao origami.

A paixão pela moda foi descoberta em 2001, quando, aos 22 anos, Yamamoto se viu insatisfeita com o curso de administração de empresas. “Durante o dia eu trabalhava na área administrativa da empresa da minha família e à noite fazia um curso de moda na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), onde conheci Jun Nakao e fiz alguns trabalhos com ele. Na verdade, ele foi meu grande mentor", conta a estilista. Depois da FAAP, Yamamoto seguiu para a Parsons School of Art and Design, em Nova Iorque, onde estudou moda.

Histórias rendadas

A coleção apresentada em outubro de 2015 no SPFW mostrou o resultado de um projeto de imersão que a estilista fez no sertão da Paraíba com 77 rendeiras da região do Cariri, as quais desenvolvem a renda Renascença. O processo foi todo documentado num vídeo. A estilista propôs novos desenhos para a renda tradicional da região e a mesclou com couro, lã e tricô, resultando numa coleção bastante enaltecida pela crítica. O sucesso rendeu um convite para um desfile em Bogotá, Colômbia, além de uma menção honrosa na Bienal Interamericana de Design, na categoria Têxteis e Moda.

Processos experimentais

A experimentação é uma das bases do desenvolvimento do trabalho da estilista. Na última coleção apresentada em julho de 2019 no SPFW, as peças tiveram detalhes em capitonê, processo usado em decoração, o qual foi realizado manualmente pela Oficina dos Anjos, uma iniciativa ligada à Rede de Saúde Mental e a Ecotece, ONG que fomenta grupos e cooperativas de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Segundo Yamamoto, o trabalho manual leva o foco para o ser humano por trás do processo. “Quando pensamos num projeto social como este, o que ganhamos, o que ensinamos, o que a aprendemos, estamos pensando em sustentabilidade, trata-se de um conjunto de valores que vão criar as nossas ações e como nos relacionamos com o outro”, destaca a profissional. Cada peça da coleção leva uma etiqueta com o nome de quem fez a costura. “Dessa forma o consumidor percebe o valor agregado ao produto e aprecia o trabalho”, justifica.

Na coleção anterior, Fernanda utilizou tingimentos naturais, vindos de elementos da agricultura de Mirandópolis, mais especificamente da comunidade Nikkei Yuba, fundada em 1930. O trabalho foi resultado de dois anos de visitas da profissional e sua equipe à comunidade, que une agricultura e arte, em forma de cooperativa.

“Fiquei bastante tocada com a questão roça versus arte. Uma atividade influencia a outra: a delicadeza com que se toca um instrumento é levada em conta na hora de tratar um alimento. Da mesma forma, o peso do trabalho braçal é suavizado com a sutileza das artes”, conta Fernanda. Esse sentimento se traduziu na passarela por meio de tecidos com texturas diferentes e tonalidades que remetiam à terra. As peças tinham por base três formas: círculo, triângulo e quadrilátero, com confecção sofisticada.

Experimentação de novas técnicas, pesquisas aprofundadas sobre temas determinados e o envolvimento com ONGs e entidades de trabalhos sociais são destaques de sia marca. A estilista, além dos 13 funcionários fixos, conta com aproximadamente 50 outros divididos em oficinas terceirizadas de gradação, produção, estamparia e corte a laser. Design original, modelagem e acabamento são prioridades em cada coleção, que conta com aproximadamente 3 mil peças.

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Sua loja em São Paulo tem 240m quadrados. Projetada em parceria com o arquiteto Mauricio Xavier, o espaço conta com muito vidro, madeira e elementos high tech. As peças são dispostas em andaimes em vez de araras.

Fotos: Agência Fotosite (desfiles) e Nathalie Artaxo (loja)