SPFW N47 encerra em clima de desalento

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SPFW N47 encerra em clima de desalento

fashion newsMay 1, 2019by Guest Contributor

No sábado dia 27, último dia da 47ª. Edição do SPFW – São Paulo Fashion Week, até agora o evento mais importante do segmento no Brasil, uma tragédia sem precedentes encerrou a semana fechando um ciclo que já se encontrava decadente. A morte do modelo Tales Soares, aos 25 anos, após desmaiar enquanto desfilava para a grife Ocksa, gerou muita discussão nas redes sociais, especialmente porque após seu pronto atendimento, ainda na passarela (o modelo foi socorrido pelos bombeiros e levado de ambulância a um hospital próximo, onde faleceu,) o evento continuou. De acordo com a assessoria do SPFW, logo após o hospital informar a morte do rapaz, a organização se reuniu com as marcas, diretores, stylists e modelos que ainda desfilariam e decidiram, apesar do abalo emocional, manter os desfiles. Foi decidido também um minuto de silêncio no início de cada apresentação.

O acontecimento gerou polêmica nas redes sociais, com a maioria criticando a decisão de se continuar o evento. O fato encerra tristemente uma sucessão de fatos desestimulantes. A saída do evento das grandes marcas, o local escolhido um tanto degradado e a falta de estrutura (só havia ar condicionado nos backstages), entre elas. Vale a discussão levantada nas redes: cabe ainda, nesse universo digital, os desfiles presenciais? As grandes marcas ainda são relevantes? O sistema de produção de roupas deve ser transformado? O que seria inovação na moda hoje? Onde fica a sustentabilidade e a interação humana? A exploração humana continua no sistema da moda? Como reverter essa situação?

Momento refletido na passarela

Se a moda se inspira no momento presente, a passarela pode se tornar palco para reflexão, protesto ou até mesmo apelos de otimismo. E foi tudo isso o que se viu nos desfiles de João Pimenta, Ronaldo Fraga, o iniciante LED, de Célio Dias e no Projeto Ponto Firme.

João Pimenta reforçou a necessidade de união em meio a um desalentado cenário cultural. Utilizou resíduos de tecidos unidos que foram base para sua impecável alfaiataria, em calças amplas e paletós rebordados e pintados de forma dramática. Renda, tecidos de decoração, veludo e sarjas entre os materiais. Destaque para os vestidos leves, bordados, usados com casacos amplos, acolchoados.

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Ronaldo Fraga inspirou-se nos painéis Guerra e Paz de Cândido Portinari e veio com uma apresentação enérgica com alusões ao momento conturbado, com estampas de mãos atadas, bordados do rosto da vereadora Marielle Franco, assassinada o ano passado, entre flores e patchwork. Lindos os vestidos desfilados no final, com flores metalizadas. Capacetes militares com flores, e símbolos de nossa flora e fauna ameaçada de extinção complementaram o styling.

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Célio Dias, da LED, trouxe a coleção “Zangada” com alusão ao movimento “ninguém larga a mão de ninguém”, iniciada logo após a eleição presidencial e que conclama minorias a ficar unidas. Calças clochard em risca de giz, conjuntos de calça e camisa, macacões. Mix de crochê em pontos unidos e tecido plano; o bordado, característico de Minas Gerais, sede da marca, veio de forma mais casual. Lã fria, tecidos tecnológicos, vinil e pelagem sintética entre os materiais usados.

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O projeto Ponto Firme, do estilista Gustavo Silvestre veio com 30 peças produzidas em crochê por 21 reeducandos da Penitenciária II “Desembargador Adriano Marrey”, de Guarulhos, São Paulo. Pela segunda vez no evento, o projeto trouxe vestidos longos, saias, calças e coletes em fios de seda e algodão. Colorido, às vezes luxuoso, o trabalho conduzido por Silvestre transmite otimismo na ressocialização de detentos e ex-detentos por meio da arte, da criatividade e do artesanato.

Moda praia flutua entre a sofisticação e a releitura

Lenny, Amir Slama, Haight, Borana e Trya foram as marcas de moda praia que desfilaram nessa edição. O que se viu na passarela foi uma moda contida, com prevalência de peças para o pós-praia, com pantalonas, vestidos longos e fluídos, saias amplas e caftans de tecidos leves e nobres como a organza e a musseline.

A marca carioca Haight estreou no SPFW em grande estilo, com sofisticação numa cartela com beges, vermelhos, preto e branco, bodies, hot pants e maiôs em malha canelada. Pantalonas com túnicas em tecidos fluídos completaram a coleção.

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Amir Slama fez uma releitura de tudo o que já criou na antiga Rosa Chá e veio com maiôs sensuais, biquínis variados, da tanga às hot pants e para os rapazes, sungas com variação de tamanho das laterais.

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A marca Borana trouxe o trabalho handmade em crochê feito com tiras de tecido e detalhes de macramê. O denim apareceu em peças como uma hot-pant, biquíni e maiô. Destaque para a veste em tear.

Trya veio com detalhes multicoloridos e estampas étnicas, inspiradas nos povos Incas. Maiôs e biquínis com laterais em tiras rústicas, tops de tear foram detalhes interessantes.

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Conforto destaca modelagem da temporada

Quase todas as coleções dos 36 desfiles priorizaram o conforto da modelagem. Calças amplas, pantalonas e pantacourts, mesmo na moda masculina foram recorrentes. Camisas e túnicas vieram em conjuntos com calças estilo pijama, em tecidos leves e fluídos. Os vestidos e saias surgiram em comprimentos variados, do mini ao maxi, passando pelo midi. Paletós em comprimentos mais longos e largura maior fizeram os costumes diferentes.

A transparência veio em peças sofisticadas em organza, esquecida em temporadas passadas e que ressurge luxuosa, em calças, trench-coats, parkas e blusas, muitas vezes em sobreposições. As telas também têm sua vez, em mix com tecidos estampados, bordadas, com aplicação de couro ou tecidos tecnológicos.

Os detalhes artesanais deram o tom de uma tendência que vem aumentando. O destaque foi o uso do crochê em várias coleções, assim como o macramê e o tricô, que surgiu aqui e ali em peças como blusas e casacos.

Korshi01 aposta na multiplicidade de opções

A marca estreante, do autodidata Pedro Korshi, tem foco na versatilidade e cada peça tem mais de uma função. Saias que viram espartilhos, calças que abertas se transformam em saias ou blusas, tudo com fechamentos em colchetes de pressão. Algodão, algodão resinado que aparenta um tecido empapelado estão na base das criações. “Tenho peças com até sete funções diferentes; penso que a multiplicidade facilita ter menos peças, otimizando o guarda-roupa”, diz o estilista.

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Contextualizar na Moda

Resultado de uma parceria entre o Instituto In-Mod (ONG que busca fomentar a moda brasileira) e o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) o Projeto Contextualizar na Moda, em sua terceira edição trouxe vários empresários para participar do evento, oferecendo a possibilidade de fazer network. Palestras de tecnologia e gestão entre outras foram oferecidas. Empresários de todo o Brasil, escolhidos por gestores do Sebrae foram os convidados.

De acordo com Graça Cabral, da Luminosidade, uma das empresas à frente na organização do evento, há ainda o projeto SPFW AMA, que corre paralelo e que visita três estados brasileiros a cada edição fazendo uma imersão com até 20 empresas. É realizada uma mentoria com os empresários para valorizar seus produtos, encontrar novos fornecedores ampliando seu leque de opções. A executiva ressalta a grande quantidade de empresas que o país tem e que pode ser trabalhado. “Estivemos recentemente no Piauí e nos surpreendemos com a qualidade de acabamentos em confecções as mais variadas; mesmo aquelas que produziam uma moda mais simples e popular, isso é muito estimulante”, conclui Graça.

Texto de: Marta De Divitiis

Fotos: Agência Fotosite