Abit divulga balanço dos últimos 12 meses
Numa coletiva de imprensa virtual Fernando Valente Pimentel, diretor - superintendente da Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – apresentou hoje (21) os dados coletados pela entidade durante os últimos 12 meses (dezembro ainda não foi contabilizado).
De acordo com Pimentel a indústria têxtil e de confecção encerrou 2025 com sinais positivos, porém em desaceleração. O ano combinou crescimento da produção, geração líquida de empregos e contribuição relevante para o controle da inflação por parte da indústria, em um ambiente marcado por juros elevados, forte concorrência externa e elevada incerteza global (devido aos problemas geopolíticos, que influenciam a economia).
“Mesmo diante de um cenário econômico desafiador, o setor conseguiu avançar. Chegamos a 2026 com ritmo menor que começamos 2025, cercados de desafios estruturais importantes, sobretudo, relacionados à competitividade e ao comércio internacional” avalia.
Os dados consolidados de 2025 mostram aumento de 6,8 por cento na produção têxtil e avanço muito tímido, de 0,7 percentuais, na confecção, na comparação entre janeiro e novembro frente ao mesmo período do ano anterior. No varejo de vestuário, as vendas cresceram 2 por cento no acumulado do ano, refletindo a recuperação gradual do poder de compra das famílias e um ambiente inflacionário mais brando.
O mercado de trabalho acompanhou essa trajetória. Entre janeiro e novembro de 2025, o setor têxtil e de confecção criou 21,9 mil postos formais de trabalho.
Desde o início do Plano Real (em 1994, instituído pelo presidente Itamar Franco) o vestuário contribui para o controle da inflação. “Enquanto itens essenciais como habitação, alimentação e transportes pressionaram o orçamento das famílias, o vestuário ajudou a conter a inflação geral. Isso reforça o papel do setor como amortecedor de preços para o consumidor”, observa Pimentel.
Expectativas para 2026
Cautela é a palavra que o executivo fala ao se referir às expectativas de 2026, ano que trará enormes desafios e que terá eleições (com polarização extrema), Copa do Mundo e 10 feriados prolongados. Segundo as análises o eventual crescimento da produção deverá ser sustentado pela retomada gradual do crédito interno, pela queda lenta dos juros e por um ambiente inflacionário mais controlado.
Por outro lado, persistem limitações estruturais relevantes, como o elevado custo de capital, que traz dificuldades para aceleração de novos investimentos produtivos e, sobretudo, a intensificação da concorrência externa, com destaque para produtos importados da Ásia, especialmente da China, este último um ponto nevrálgico.
“O cenário macroeconômico e geopolítico adiciona novas camadas de incerteza”, pondera Pimentel. O ano eleitoral tende a elevar a volatilidade das expectativas, enquanto o ambiente internacional segue marcado por disputas comerciais, reconfiguração de cadeias globais e políticas industriais mais agressivas. No plano doméstico, a Copa do Mundo pode estimular muito pontualmente o consumo de vestuário, mas um calendário com número elevado de feriados tradicionalmente afeta a produtividade e o desempenho econômico”, justifica.
Comércio exterior e pressão das importações
Em 2025, apesar do aumento das exportações a balança comercial da indústria têxtil e de confecção manteve seu caráter deficitário. No acumulado de janeiro a dezembro, o Brasil exportou 951 milhões de dólares em produtos do setor (sem considerar a fibra de algodão), enquanto as importações somaram 6,81 bilhões de dólares, resultando em um déficit comercial enorme, de 5,86 bilhões de dólares.
Ao compararmos com 2024, as exportações apresentaram crescimento de 8 percentuais, com maior presença em mercados regionais como Argentina, Paraguai e Uruguai, além dos Estados Unidos. As importações, por sua vez, avançaram 5,2 por cento, porém a de vestuário em toneladas cresceu 13,1 percentuais impulsionadas principalmente por produtos originários da Ásia, em especial da China, Índia, Bangladesh e Vietnã. Esta porcentagem inquietante é mais de 6 vezes superior ao crescimento do varejo.
A entidade considera esse diferencial crítico, pois indica que o mercado brasileiro vem absorvendo parte dos excedentes produtivos asiáticos, especialmente chineses. “Trata-se de uma concorrência muitas vezes assimétrica, baseada em subsídios relevantes, incentivos estatais e práticas que nem sempre seguem regras equivalentes às enfrentadas pela indústria brasileira”, diz Pimentel.
No contexto global, o consumo mundial de vestuário foi estimado em 1,8 trilhão de dólares em 2024 e deve chegar a 2,3 trilhões de dólares até 2030, com crescimento médio anual de 4 por cento. O comércio internacional de têxteis e vestuário somou aproximadamente 875 bilhões de dólares em 2024, dominado por países asiáticos, o que intensifica a competição tanto nos mercados externos quanto no próprio mercado doméstico brasileiro.
Diante desse cenário, Pimentel avalia que “o Brasil precisa acelerar sua agenda doméstica para não perder espaço”. Para ele, é essencial avançar na redução do Custo Brasil, buscar equilíbrio fiscal, viabilizar uma queda mais consistente dos juros e fortalecer as políticas de apoio à indústria. “Em um ambiente de competição global mais dura, instrumentos de defesa comercial podem ser necessários para garantir isonomia competitiva”, destaca.
Agenda internacional, sustentabilidade e acordo Mercosul-UE
2026 também ganha contornos estratégicos com o avanço Mercosul-União Europeia. Além de ampliar o acesso a um mercado de alto valor agregado, o acordo tende a elevar a importância de pauta da sustentabilidade, rastreabilidade e conformidade ambiental, temas centrais para o setor têxtil global. “A União Europeia já é um parceiro comercial relevante e uma das principais origens de máquinas e equipamentos têxteis. Com o acordo, sustentabilidade deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser um requisito competitivo” observa Pimentel. O desafio, segundo o diretor-superintendente será alinhar essa agenda a políticas internas que ampliem a competitividade da indústria nacional, evitando diferenças regulatórias.
Ao final de 2025, a indústria têxtil e de confecção manteve um papel expressivo na economia brasileira. Com faturamento superior a 220 bilhões de reais, aproximadamente 25,7 mil empresas e 1,34 milhão de empregos diretos, o setor figura entre os maiores do mundo, ocupando a quinta posição no ranking global. “Temos capilaridade regional, relevância social e potencial de crescimento. O necessário agora é transformar uma recuperação conjuntural em avanço estrutural, o que passa por estabilidade macroeconômica, reformas - como a administrativa - políticas industriais consistentes e inserção internacional competitiva”.
O executivo explicou que a Abit está com uma agenda intensa em Brasília, junto aos órgãos governamentais, para obter estas políticas industriais necessárias. Além disso, o acordo Mercosul – EU, deve beneficiar sim a indústria têxtil, mas para tanto há a necessidade de se trabalhar muito. Pimentel cita como exemplo a aceleração dos investimentos e o aumento das qualificações profissionais, entre outros. Concluiu a coletiva sintetizando as expectativas: “temos esperança na ação!”
- A indústria têxtil e de confecção brasileira encerrou 2025 com crescimento na produção e geração de empregos, mas em desaceleração e enfrentando desafios de competitividade e concorrência externa.
- As importações de vestuário, especialmente da Ásia, cresceram significativamente em 2025, resultando em um déficit comercial expressivo e levantando preocupações sobre concorrência assimétrica.
- Para 2026, a indústria prevê um cenário de cautela, com desafios como o alto custo de capital, a intensificação da concorrência externa e a necessidade de políticas de apoio para garantir a competitividade e o avanço estrutural do setor.
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