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Análise de Cenários traz perspectivas para a indústria calçadista brasileira

Ontem, 15 de abril, a Abicalçados – Associação Brasileira das Indústrias de Calçados – apresentou num evento online em sua página no Youtube a Análise de Cenários, conduzido pela economista e coordenadora de Inteligência de Mercado da entidade, Priscila Linck, e pelo doutor em Economia Marcos Lélis. O encontro contou com apresentações do panorama econômico brasileiro e mundial, e os seus reflexos na indústria calçadista.

Após um primeiro trimestre desafiador, com queda no consumo doméstico e nas exportações, a indústria calçadista deve iniciar um processo de recuperação na segunda metade do ano. A projeção para a produção de calçados, ao final do ano, fica entre uma queda de 1,2 por cento (cenário pessimista) e o crescimento de até 1,4 percentual (cenário otimista). Na média, a produção deve manter estabilidade em relação a 2025, com crescimento de 0,1 por cento, totalizando 848,3 milhões de pares. De acordo com ambos os especialistas os segmentos de Têxteis e Couros foram mais impactados.

No panorama geral foram destacadas as incertezas da economia internacional, provocadas especialmente pelo conflito no Oriente Médio e seus reflexos nos custos produtivos e logísticos. Lélis ressaltou o desaquecimento do consumo nos Estados Unidos e a pressão inflacionária daquele mercado sobre as taxas de juros. “Os juros de longo prazo aplicados estão ainda muito elevados, de 4,4 por cento. O fato gera dificuldades para a baixa dos juros em outros países, inclusive no Brasil. Isso mantém o endividamento das famílias brasileiras ainda muito elevado”, explica. Segundo levantamento da CNC - Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo - o nível é o maior da série histórica, de 80,2 percentuais. Além disso a população adulta inadimplente alcançou 47,9 por cento (dívidas não pagas há mais de três meses, segundo o Serasa – empresa de dados voltados para a análise de crédito e informações comerciais). O fato, segundo Lélis, esgota as condições de consumo frente ao crescimento da renda no País. “Hoje, 29,3 percentuais da renda das famílias está comprometida com dívidas, sendo 10,5 por cento somente com os juros”.

Calçados – produção, consumo, exportação e importação

Com queda de 1,9 percentuais na sua produção em 2025 (para 847,5 milhões de pares), o ano passado foi impactado pela queda nas exportações ao longo do segundo semestre, em função das tarifas impostas pelos Estados Unidos, e pelo desaquecimento do consumo na Argentina, os dois principais destinos dos embarques brasileiros. Com isso, o segmento produtivo mais afetado foi o de calçados casuais e sociais (que perderam aproximadamente 2 percentuais dentro da estrutura produtiva), o mais destinado às exportações. No ano passado, apesar dos problemas mencionados no mercado externo, os embarques aumentaram 6,7 por cento, graças ao crescimento alcançado ao longo da primeira parte daquele ano. Já a produção destinada ao consumo interno, em 2025, caiu 3 percentuais.

Segundo Priscila, as importações totais de calçados nos Estados Unidos caíram 8 por cento em 2025, o que significou 170 milhões de pares a menos consumidos naquele mercado. Já no primeiro bimestre de 2026, as importações norte-americanas caíram 12 percentuais (menos 49 milhões de pares consumidos). Enquanto isso, a importação do mercado argentino, mesmo tendo aumentado em 2025 (38 por cento) vem em queda desde a segunda parte do ano passado. Nos primeiros dois meses de 2026, as importações totais dos argentinos caíram 15,9 percentuais.

Além da queda do consumo nos principais mercados, as exportações brasileiras vêm sendo atingidas pelo incremento dos embarques chineses para alguns dos principais destinos nacionais. Em 2025, de acordo com a coordenadora, as exportações chinesas caíram 2 percentuais, o que significou a redução de 186 milhões de pares exportados. Já no primeiro bimestre de 2026, os embarques totais do país asiático cresceram 12 por cento, recuperando as perdas do ano passado. “As tarifas adicionais aplicadas pelos Estados Unidos desorganizaram as cadeias comerciais, de modo que parte das perdas sofridas pelas exportações chinesas àquele mercado foram redirecionadas para países das américas Central e do Sul, e para a África”, comenta Priscila. O fato é ilustrado pelos números. No ano de 2025, as exportações chinesas para a América do Norte registraram queda de 19 por cento. Já para países da América do Sul os embarques aumentaram 4,1 percentuais, para países da América Central 2,2 por cento e da África 14,2 percentuais, somando 20,5 por cento.

Creditos: Timo Strüker/Unsplash.

Projeções preveem retomada gradual

A queda de produção, de acordo com Priscila, deve ser amenizada na segunda parte do ano. No primeiro bimestre (dado mais recente), a produção brasileira caiu 11,1 por cento. Para o primeiro trimestre, a projeção é de encerramento com queda de 6,8 percentuais. Para o segundo trimestre, o revés projetado é de 4,6 por cento. “Existe um cenário de retomada gradual, tanto do consumo interno quanto das exportações, no segundo semestre”, projeta a economista. “Nos Estados Unidos, a tarifa adicional sobre as importações situa-se em 10 percentuais, o que nos coloca novamente em condições de igualdade tarifária com os nossos principais concorrentes internacionais naquele mercado”, explica.

Segundo semestre tem perspectivas mais animadoras na dinâmica de consumo interno e exportações

Com a recuperação esperada para a segunda parte do ano, a indústria calçadista deve encerrar 2026 com uma produção entre crescimento de 1,4 por cento (projeção otimista) e queda de 1,2 percentuais (projeção pessimista) - mediana de 0,1 por cento. “Tudo vai depender da conjuntura econômica internacional e do ritmo da economia brasileira. O primeiro semestre já foi precificado. Para o segundo, é esperada a resolução do conflito no Oriente Médio, com espaço para algum alívio de custos e recuperação do mercado internacional”, comenta.

Porém, mesmo com a recuperação projetada, a exportação brasileira deve encerrar com uma queda entre 4,1 e 8,9 por cento. Já o consumo, ao longo de 2026, deve crescer entre 0,5 e 3,1 percentuais, refletindo na estabilização da produção nacional - hoje, 88 por cento destinada ao mercado doméstico, e somada à dinâmica de expansão de importações.

Ao final, foi abordado o acordo Mercosul – União Europeia, assinado em janeiro no Paraguai e promulgado em março pelo Congresso Nacional, que entrará em vigor após 60 dias da promulgação – em primeiro de maio - já com diminuição de tarifas. Apesar de sinalizar benesses, ambos os especialistas dizem que é muito cedo para fazer previsões a respeito.

Em resumo
  • A indústria calçadista brasileira enfrentou um primeiro trimestre desafiador em 2026, com quedas na produção e exportações, mas projeta uma recuperação gradual no segundo semestre, impulsionada pela estabilização do consumo interno e das exportações.
  • As incertezas econômicas globais, como o conflito no Oriente Médio e a pressão inflacionária nos EUA, impactaram o setor, elevando custos e dificultando a redução das taxas de juros, o que mantém o endividamento das famílias brasileiras em níveis recordes.
  • Apesar da queda nas exportações em 2025 devido a tarifas e desaquecimento de mercados como EUA e Argentina, a expectativa para 2026 é de estabilidade na produção, com o consumo interno crescendo e o acordo Mercosul-UE abrindo novas perspectivas, embora ainda incertas.

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