O que fazer com as camisetas de uma só estrela?
A segunda estrela já tem seu lugar na camiseta da Espanha. O distintivo, que imortaliza a segunda Copa do Mundo conquistada pela seleção após vencer a Argentina ontem, se soma àquele que recordava o título de 2010 na África do Sul.
O uniforme da La Roja, agora com a segunda estrela sobre o escudo, chegará ao mercado nas próximas semanas. A Adidas, patrocinadora técnica da seleção, já anunciou que permitirá reservar a camiseta a partir de 4 de agosto, exclusivamente através de seu aplicativo oficial, enquanto a partir de 15 de agosto também estará disponível nos canais da Real Federação Espanhola de Futebol.
Além disso, a marca alemã também lançará amanhã no mercado uma camiseta comemorativa disponível em azul-marinho e vermelho, que incorpora a trajetória da Espanha durante a Copa do Mundo para celebrar o título conquistado na noite passada.
Para a Adidas, a vitória chega em um contexto de forte impulso comercial. A fabricante, fornecedora de ambos os finalistas, transformou o torneio em um dos maiores sucessos de sua história recente. Segundo dados coletados pela agência DPA, a empresa vendeu quatro vezes mais camisetas do que durante a Copa do Mundo do Catar e duplicou as vendas da bola oficial. O grupo prevê faturar cerca de 1,5 bilhão de euros vinculados à Copa do Mundo, o limite superior das previsões comunicadas por seu CEO (diretor executivo, na sigla em inglês), Björn Gulden. Entre as 14 seleções patrocinadas pela Adidas, foi o país anfitrião, México, que liderou as vendas.
A efemeridade das vitórias
Jamais esquecerei a expressão do meu irmão mais novo ao abrir aquele presente que, anos atrás, eu havia comprado com entusiasmo durante uma viagem a Madri. Era um cachecol do Real Madrid no qual se podia ler “a décima”. A emoção durou apenas alguns segundos até ele me dizer: “Obrigado, mas eles já têm 11”... Naquele instante, entendi por que aquele produto estava em promoção.
Quando a história avança, o mercado também avança. A camiseta que ontem representava o último grande sucesso esportivo hoje é uma versão desatualizada para um consumidor que quer celebrar a vitória de sua equipe. Portanto, a incorporação da segunda estrela ao escudo da Real Federação Espanhola de Futebol transforma imediatamente o estoque de camisetas com uma única estrela em um produto com menor apelo comercial.
Tradicionalmente, as marcas gerenciam esse tipo de excedente por meio de campanhas de descontos, doações ou, em alguns mercados, a destruição do inventário. No entanto, esse modelo começa a perder força diante de um quadro regulatório cada vez mais exigente e de uma pressão crescente para gerenciar o produto de forma mais responsável.
A entrada em vigor do Regulamento (UE) 2024/1781 de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR) coincidiu com a vitória. A normativa limita progressivamente a destruição de determinados produtos têxteis não vendidos e obriga as empresas a repensar a gestão de seus excedentes, buscando um equilíbrio entre rentabilidade, sustentabilidade e proteção do valor da marca.
A escassez ganha peso como estratégia
Algumas marcas emergentes estão explorando um caminho diferente, baseado na escassez, na experiência ou na fabricação sob demanda. A TwoJeys, por exemplo, cujo próprio logotipo gira em torno de duas estrelas, encontrou nesta vitória uma oportunidade de ouro. A marca lançou um drop limitado em colaboração com a New Era que se materializa em um boné vermelho com bordado dourado, o logotipo com as letras “TJ” em estilo manuscrito, as duas estrelas e a data no painel lateral. Aliás, ontem já foi possível ver Keyne Yamal, o irmão mais novo de Lamine Yamal — que se tornou um dos protagonistas da Copa do Mundo fora de campo —, usando-o em fotos após o jogo.
A Nude Project foi um passo além com uma coleção de sete peças que, na verdade, ninguém podia comprar. Cada peça foi produzida em uma única unidade. Uma única peça destinada a uma única pessoa. Para consegui-la, era necessário participar de um sorteio comprando um bilhete de um euro que seria sorteado após cada vitória da Espanha. Além disso, o vencedor do sorteio realizado após a semifinal também ganhava um passe duplo para assistir à final ao vivo.
A pressão do mercado paralelo
Mas a batalha para capitalizar um sucesso esportivo não é travada apenas nos canais oficiais. Esse tipo de evento impulsiona a demanda por todos os tipos de artigos, alimentando um mercado paralelo que continua sendo um dos grandes desafios para as marcas e as federações esportivas.
Apesar de a falsificação ser duramente combatida na Espanha, o mercado paralelo de camisetas esportivas continua a ter um peso relevante. Há apenas um mês, a polícia apreendeu 16 toneladas de camisetas falsas em uma operação que resultou em aproximadamente uma centena de detidos. O material apreendido incluía cerca de 66.000 camisetas que as organizações poderiam ter comercializado por cerca de dois milhões de euros no mercado clandestino, gerando perdas de até sete milhões de euros para os canais oficiais.
As estimativas do setor refletem a magnitude do problema. Segundo dados do Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia (EUIPO), apenas cerca de 20 por cento das camisetas da Copa do Mundo usadas pelos torcedores espanhóis são originais.
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