O reparo de roupas está em alta mas será uma mudança real na indústria
A atenção ao reparo e ao cuidado com as roupas está em alta. As pessoas parecem cada vez mais interessadas na composição de suas peças, em quanto tempo elas vão durar e em como cuidar delas. As marcas também estão despertando para o conserto. Durante o primeiro semestre de 2026, marcas e varejistas como Salomon, Kiabi e Next lançaram programas de reparo, e o United Repair Centre, um dos maiores provedores de reparo da Europa, inaugurou um novo centro de consertos em Paris.
De acordo com a Fédération de la Mode Circulaire e a KPMG, o mercado europeu de reparo de roupas e calçados foi avaliado em cerca de 2,8 bilhões de euros em 2025, com projeção de crescimento de 5,5 por cento ao ano até 2030, atingindo 3,7 bilhões de euros. O mercado ainda é relativamente pequeno e o setor segue em estágio inicial. O reparo exige muita mão de obra, os modelos de negócios para as marcas ainda não estão totalmente estabelecidos e a queda na qualidade das peças significa que muitos itens não compensam o conserto. Pesquisas publicadas durante o primeiro semestre mostraram que o reparo pode valer a pena quando os artigos são de alta qualidade, o que torna o design durável tão importante quanto o próprio serviço de conserto.
No âmbito das políticas públicas, bônus de reparo, IVA – Imposto sobre o Valor Agregado circular e requisitos de ecodesign podem ajudar o setor a ganhar escala. Embora os governos estejam gradualmente prestando mais atenção ao incentivo ao conserto, o fator decisivo para a indústria pode ser o crescente interesse do consumidor. À medida que mais pessoas utilizam serviços de reparo, aprendem a consertar suas próprias roupas e exigem produtos duráveis, as marcas precisarão responder.
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O interesse do consumidor está se voltando para o cuidado e a qualidade
O interesse pelo reparo e cuidado com as roupas vem crescendo desde 2025, segundo dados do Google Trends, e as conversas sobre materiais têxteis estão ganhando espaço nas redes sociais com hashtags como #fabrictok e #naturalfibertok. O interesse crescente pelos materiais, especialmente a preferência por fibras naturais em vez de sintéticas, também está ligado à preocupação cada vez maior com os microplásticos nas roupas e em outros bens de consumo. Os consumidores atentos à circularidade também esperam que suas peças durem. No relatório Circular-Conscious Consumer Report de 2026 da Samsara Eco, uma pesquisa com mais de 5.000 membros de sua comunidade predominantemente da geração Z, 89 por cento dos entrevistados disseram esperar pelo menos 30 usos de um produto, enquanto a parcela dos que afirmam que a qualidade é responsabilidade da marca atingiu 54 pontos percentuais.
Além do interesse crescente por qualidade e durabilidade, o conserto está se tornando algo que as pessoas querem mostrar que fazem. O remendo visível está transformando o reparo em uma afirmação de estilo, com os consertos sendo cada vez mais exibidos em vez de escondidos. De acordo com o relatório Hobbies Trend Report 2026 do Pinterest, as buscas por “ideias de sashiko”, a técnica japonesa de remendo visível, subiram 1.509 por cento, e as pesquisas por “estética de reparo” registraram uma alta percentual de 157 pontos. Algumas marcas também estão aderindo à tendência, com os adesivos de reparo da Arc’teryx se tornando um visual desejado por si só.
As marcas estão cada vez mais interessadas em reparos
A Circular Fashion News mapeou nove lançamentos e expansões de programas de reparo de marcas no primeiro semestre de 2026. Na França, Kiabi, Moea e Octobre lançaram programas com a plataforma de reparos Save Your Wardrobe, enquanto a Salomon fechou parceria com o United Repair Centre e, desde então, expandiu seu programa para Reino Unido, Alemanha, Países Baixos, Itália e Espanha. No Reino Unido, a Next lançou serviços de conserto com a Sojo, a Primark com a The Seam e a Lanx com a Tern. A Fabienne Chapot fez parceria com a Mended nos Países Baixos, e a varejista australiana The Iconic uniu-se à Hello Tailr.
Os novos lançamentos se juntam a um grupo de marcas que mantêm serviços de reparo há anos e, em alguns casos, há décadas:
- A Barbour introduziu seu serviço de reenceramento e conserto em 1921 e atualmente recupera ou conserta cerca de 97.000 itens por ano
- A Patagonia, que conserta seus produtos desde 1976, reparou 174.799 peças em todo o mundo no ano fiscal de 2025
- A Nudie Jeans, que oferece consertos gratuitos desde 2014, realizou 68.342 reparos e ajustes em 2024
- No mercado de luxo, a Louis Vuitton opera 12 oficinas de reparo no mundo, atendendo a quase 600.000 artigos anualmente
O dinheiro é tanto o maior motivador quanto a maior barreira
Durante o primeiro semestre, o RISE – Research Institutes of Sweden publicou um estudo com mais de 3.000 consumidores na Dinamarca, Polônia e Suécia sobre serviços de conserto de roupas. Na Dinamarca e na Suécia, os benefícios financeiros foram a motivação mais forte para consertar, à frente das razões ambientais. Em um experimento de escolha sobre reparo de peças em denim, os entrevistados estavam, em média, dispostos a pagar cerca de 40 a 85 por cento do preço de uma peça nova, dependendo do país, embora os pesquisadores observem que esses números devem ser vistos como um limite máximo. Na Dinamarca e na Suécia, a principal barreira para o uso de serviços de reparo foi a incapacidade de avaliar antecipadamente o custo e o tempo envolvidos, enquanto na Polônia foi a facilidade de simplesmente comprar uma peça nova.
Ao mesmo tempo, a queda nos preços impulsionada pelo fast fashion e pelo ultra-fast fashion torna muitas peças baratas demais para que o conserto valha a pena. Quando um item novo custa menos do que consertar um antigo, o preço se torna o fator decisivo. É por isso que grande parte da discussão sobre políticas públicas em torno do reparo se concentra em torná-lo mais barato para o consumidor final.
Nas políticas públicas o maior impacto pode vir do IVA circular e de iniciativas de bônus de reparo
O apoio de políticas públicas para o reparo funciona principalmente por meio de três frentes: requisitos de ecodesign para produtos duráveis e reparáveis, REP – Responsabilidade Estendida do Produtor (ou EPR, na sigla em inglês) e incentivos financeiros, como bônus de reparo e redução de IVA. Desses recursos, os incentivos financeiros são os que abordam de forma mais direta o problema financeiro descrito pelos consumidores.
O bônus de reparo na França continua sendo a principal referência. Desde 2023, a iniciativa oferece aos consumidores um desconto instantâneo de sete a 25 euros por conserto de roupa ou calçado em profissionais certificados, financiado pelas marcas por meio de taxas de REP. Em fevereiro de 2026, o governo irlandês anunciou que fará um projeto-piloto de um programa semelhante de vouchers de reparo a partir de 2027.
O IVA circular pode ter um efeito potencialmente ainda mais amplo. A legislação da UE – União Europeia permite a redução do IVA sobre o reparo de roupas e calçados desde 2022, mas poucos países aplicam a medida. De acordo com o estudo da Fédération de la Mode Circulaire e da KPMG, um IVA circular introduzido em toda a UE em 2029 elevaria o crescimento anual para cerca de 7,4 por cento e o mercado de 2030 para aproximadamente 3,9 bilhões de euros.
Em maio, a Fundação Ellen MacArthur e 69 organizações, incluindo H&M Group, Decathlon, Zalando, Vinted e Arc’teryx, pediram aos governos a redução do IVA e dos impostos trabalhistas sobre reparo e revenda. Segundo o relatório “The New Bottom Line” da fundação, essas medidas poderiam elevar as margens de lucro bruto do reparo para cerca de 41 por cento.
As marcas precisam descobrir como se beneficiar do reparo
Muitas marcas ainda operam o reparo como um custo de atendimento ao cliente, e não como uma fonte de receita. Um levantamento da Universidade de Exeter, da Universidade Metropolitana de Manchester e da Finisterre mapeou seis maneiras pelas quais as marcas podem organizar o conserto. Elas variam desde centros de reparo internos liderados pela própria marca até parceiros homologados, terceiros independentes e o reparo realizado pelo próprio cliente, no qual a marca fornece ferramentas, peças de reposição e instruções.
Grande parte da discussão sobre como as marcas se beneficiam do conserto se concentra no valor estratégico, como a fidelização de clientes e a adequação regulatória, mas também há sinais de que o reparo pode gerar novas receitas por meio da revenda. No relatório “Sorting for Circularity: Project Rewear”, da Fashion for Good e da Circle Economy, o United Repair Centre analisou dados de 1.131 peças de marca processadas por seu serviço de reparo e renovação. O conserto, a inspeção e a lavagem custaram em média 22,73 euros por item, e as peças foram revendidas por uma média de 73,93 euros. Isso representa 3,3 vezes o custo do reparo, sendo que 97,7 por cento dos artigos foram revendidos por um valor superior ao custo de seu conserto.
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Em conclusão, os resultados do primeiro semestre de 2026 sugerem que o reparo está indo além de um nicho, mas ainda não representa uma mudança estrutural na indústria como aconteceu, por exemplo, com a revenda. O interesse do consumidor é real, os lançamentos das marcas estão se multiplicando e a viabilidade econômica pode funcionar para produtos de qualidade. Contudo, o mercado ainda é pequeno, a maioria dos programas permanece modesta em comparação aos volumes de vendas e a diferença de preço entre consertar e comprar algo novo mantém o reparo fora do alcance de grande parte do mercado.
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Referências:
-State & Prospects of Circular Fashion in Europe, 2026, Fédération de la Mode Circulaire / KPMG
-Circular-Conscious Consumer Report, 2026, Samsara Eco
-Hobbies Trend Report 2026, 2026, Pinterest
-Consumer Preferences for Digital Platform-Based Clothing Repair Service Features: Evidence from a Multinational Choice Experiment, 2026, RISE Research Institutes of Sweden (Daniel, Diener & Hunka, Cleaner and Responsible Consumption)
-The New Bottom Line, 2026, Fundação Ellen MacArthur
-Mapping the Repair Landscape in Fashion: Briefing for Business Leaders, 2026, Universidade de Exeter / Universidade Metropolitana de Manchester / Finisterre
-Sorting for Circularity: Project Rewear, 2026, Fashion for Good / Circle Economy
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