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Trabalho infantil e semi-escravo assola indústria têxtil na Índia


Depois do desastre de Rana Plaza, em Bangladesh, quando uma fábrica de roupas desabou matando mais de mil pessoas, o Ocidente finalmente passou a prestar mais atenção à forma como são feitas as roupas vendidas por grandes marcas internacionais. No entanto, poucas pessoas sabem que também existem milhões de pessoas trabalhando para a indústria têxtil mundial não em fábricas, mas em ambientes domiciliares ou informais.

Um novo estudo conduzido por Siddhart Kara, da Universidade de California, Berkeley, acaba de revelar a realidade de 1.452 pessoas que trabalham dessa forma em um dos países que mais exportam roupas no mundo, a Índia. Mulheres e crianças compõem quase a totalidade (95 por cento) desse tipo de trabalhador: a entrevistada mais jovem tinha 10 anos de idade, enquanto a mais velha tinha 73. Porém, a equipe de Kara também viu muitas crianças de menos de 10 anos acompanhando suas mães no trabalho.

Elas trabalham entre seis e sete dias por semana, em jornadas de seis a oito horas por dia, mas jornadas de até 14 horas (sem pagamento de horas extras) são comuns. Geralmente são responsáveis por dar “toques finais” às peças, como bordados, botões e aplicação de miçangas. Para isso, ganham em média 15 centavos de dólar por hora, o que significa que estão trabalhando em regime semi-escravo de acordo com a lei indiana, posto que este salário está muitíssimo abaixo do salário mínimo do país. A maioria das entrevistadas ganha entre 50 e 90 por cento a menos que o salário mínimo -- isso quando recebe salário. “Eu nunca recebo meu pagamento em dia. Sempre tenho que chorar para o meu patrão me pagar”, disse uma trabalhadora de 23 anos de idade.

O estudo revelou também que a maioria dessas pessoas (85 por cento) produz apenas roupas para marcas dos Estados Unidos e Europa. Os 15 por cento restantes trabalham tanto para marcas indianas quanto internacionais. Juntos, EUA e União Europeia recebem 47 por cento das exportações de roupas da Índia.

Isso não significa necessariamente que as grandes marcas ocidentais estejam contratando empresas que exploram trabalho semi-escravo, mas elas são indiretamente responsáveis pelo problema ao exigir preços cada vez menores das fábricas que contratam em países pobres (e não se questionar como elas chegam a ofertas tão baixas nem fiscalizar todos os elos de sua cadeia de produção). As fábricas oficialmente contratadas acabam repassando parte do trabalho a empresas menores, que se utilizam desses empregados que trabalham em casa. Em suma, tanto as grandes marcas quanto as fábricas que trabalham com elas fazem vista grossa para as práticas de empresas subcontratadas.

Como resolver o problema?

“O objetivo desta investigação é mostrar como são as vidas desses trabalhadores, na esperança de que empresas, governos e ONGs tomem uma atitude”, disse Kara em um comunicado. Para inspirá-los a agir rapidamente, o relatório inclui uma lista de 10 passos indispensáveis para combater a exploração de mulheres, crianças e membros de castas consideradas inferiores na Índia. Aqui vão eles:

1. Mais pesquisas acadêmicas sobre o assunto Essa é a primeira pesquisa deste tipo conduzida no mundo. É preciso que mais pesquisadores se dediquem ao assunto para aprofundarmos nosso conhecimento sobre as condições de trabalho dessas pessoas, não só na Índia, mas em outros países também.

2. Parcerias público-privadas: é preciso que empresas, governos e terceiro setor se unam para garantir que todas as crianças indianas tenham acesso à educação e que todos os trabalhadores têxteis tenham condições dignas de trabalho.

3. Criar um sindicato para os trabalhadores domiciliares da indústria têxtil para que possam defender seus interesses. De acordo com Kara, não é realista exigir que o trabalho domiciliar seja proibido porque, em culturas bastante machistas como é o caso da indiana, muitas mulheres não podem ou são impedidas de trabalhar fora de casa. Entre trabalhar fora e não trabalhar, elas simplesmente não trabalhariam -- o que afundaria suas famílias ainda mais na pobreza.

4. Transparência e formalização do setor têxtil: as fábricas contratadas pelas marcas de moda ocidentais devem exigir transparência das empresas que contratam para ajudá-las com o trabalho. É preciso que saibam exatamente quantos, quem são e quanto ganham os trabalhadores domiciliares envolvidos e que essa informação seja repassada às marcas contratantes.

5. Aumentar o salário mínimo na Índia: afinal, mesmo que os trabalhadores domiciliares recebessem o salário mínimo determinado pelo governo, a quantia ainda seria insuficiente para viver uma vida digna e colocar seus filhos na escola.

6. Pagamento de horas extras:Muitos entrevistados são forçados a trabalhar 12 ou mais horas por dia sem receber nada pelas horas extras.

7. Fiscalização de toda a cadeia:É preciso que cada elo da indústria têxtil seja fiscalizado por auditores independentes.

8. Aumentar o número de investigações e processos contra quem explora trabalho semi-escravo: atualmente, tais empresas raramente são punidas.

9. Empoderar mulheres, crianças e membros de castas consideradas inferiores: muitas das entrevistadas são analfabetas. É preciso que meninas tenham acesso à escola e que mulheres recebam educação para poder executar outros tipos de trabalho. Boa parte das entrevistadas se queixou de que o trabalho têxtil domiciliar é a única opção disponível para elas.

10. Conscientizar os consumidores no Ocidente: é preciso que os consumidores de países ocidentais saibam dessa situação e passem a enxergar além das pechinchas. É ético pagar pouco por uma peça de roupa sabendo que o preço baixo se deve à exploração de trabalho em situação análoga à escravidão?

Foto: cortesia relatório Tainted Garments

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