Uma nova febre do ouro coloca em xeque terras protegidas da Amazônia

A alta do preço do ouro impulsiona o garimpo ilegal em terras protegidas da Amazônia, gerando conflitos com povos indígenas e desafios para a fiscalização ambiental
Cultura
Ouro Créditos: Esta imagem foi criada pela FashionUnited usando uma ferramenta de inteligência artificial para ilustrar esta história.
By AFP

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Pykany, Brasil- O cacique indígena Bepdjo Mekragnotire se prepara mais uma vez para liderar um grupo de guerreiros para expulsar garimpeiros ilegais do território de seu povo, na floresta amazônica do Brasil.

Com um cocar de penas vermelhas, Bepdjo contou à AFP que as tensões com invasores na terra indígena Bau, no estado do Pará, aumentaram, quatro anos depois de seu povo Kayapó ter expulsado quase 200 garimpeiros.

"Os garimpeiros são teimosos. Eles entram de qualquer jeito. Porque hoje o preço do ouro está muito alto", disse Bepdjo, de 45 anos, à AFP em Pykany, uma aldeia em um território vizinho a Bau.

"Temos que expulsá-los, caso contrário, eles continuarão avançando".

O ouro, um ativo de refúgio em tempos turbulentos, vive uma nova era de valores históricos em meio à instabilidade global.

Essa febre empurra os garimpeiros ilegais para áreas relativamente preservadas até agora, como Bau.

Em fevereiro, armas foram sacadas por um momento quando Bepdjo e vários guerreiros Kayapó cruzaram com garimpeiros em uma canoa. Segundo o cacique, eles expulsaram 24 pessoas.

Depois, uma coalizão de organizações indígenas alertou as autoridades em uma carta sobre o "risco iminente de um conflito armado em grande escala" e lhes pediu ajuda.

Bepdjo está cansado de esperar. "Não sabemos quantos garimpeiros estão lá dentro, simplesmente chegamos e vemos", disse ele, enquanto planeja a nova missão.

Jair Schmitt, presidente interino da agência ambiental pública Ibama, disse à AFP que o órgão se concentra em territórios "que enfrentam situações particularmente críticas: O Ibama não pode estar fisicamente presente em todas as áreas".

"Nas profundezas da floresta"

Especialistas consideram que as terras indígenas protegidas são uma das melhores defesas contra o desmatamento e as mudanças climáticas.

Do ar, em um voo do Greenpeace, a AFP pôde observar a pressão do garimpo sobre áreas protegidas.

Vastas paisagens de árvores derrubadas, com poços e canais escavados para minas, são interrompidas em uma fronteira invisível com territórios indígenas, onde o verde da floresta se estende até o horizonte.

Segundo a ONG Amazon Mining Watch, o garimpo afetou 223.000 hectares no Brasil entre 2018 e 2025, quase 80 por cento de forma ilegal.

Desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou ao poder em 2023, o governo reprime o garimpo clandestino, depois que seu antecessor Jair Bolsonaro foi acusado de incentivar um clima de impunidade na Amazônia.

Mas os barões do garimpo, cujas operações passaram de empreendimentos artesanais para projetos multimilionários com maquinário pesado e frotas de pequenos aviões, se adaptaram rapidamente.

Nilton Tubino, coordenador de operações de proteção dos territórios indígenas nomeado pelo governo Lula, disse à AFP que uma "nova febre do ouro" incentiva o garimpo ilegal na Amazônia.

"Os garimpeiros estão indo cada vez mais para o interior da floresta", afirmou.

Schmitt, do Ibama, disse que a maior dificuldade é "enfrentar o crime organizado", em alusão às facções Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho, declaradas organizações terroristas pelos Estados Unidos na quinta-feira (28 de maio) e cada vez mais presentes nesta atividade.

"Minas fantasmas"

O Instituto Escolhas, que analisa a cadeia de fornecimento do ouro, apontou que o Brasil produziu 71 toneladas de ouro em 2025, exportadas principalmente para o Canadá, Suíça e Reino Unido.

O Brasil está trabalhando em uma nova legislação para garantir a rastreabilidade do ouro.

Larissa Rodrigues, do Escolhas, disse que, devido à ofensiva do governo, o ouro que antes "saía do Brasil pela porta da frente" agora é contrabandeado através de países vizinhos como a Guiana ou a Venezuela.

Existem outras brechas legais para lavar ouro, como as "minas fantasmas", descritas em uma investigação do Greenpeace publicada nesta sexta-feira.

Esses locais têm licenças de garimpo artesanal e declaram vendas, mas quando se sobrevoa a área não há sinais de atividade.

Danicley de Aguiar, coordenador para povos indígenas do Greenpeace Brasil, disse que o ouro extraído de áreas protegidas provavelmente é lavado por meio desses esquemas.

Fernando Lucas, presidente da Federação das Cooperativas de Garimpeiros do Pará, disse que está farto de os garimpeiros serem "apontados como criminosos".

Ele garantiu à AFP que muitos querem operar legalmente, mas ficam presos na burocracia, e pediu um modelo mais "organizado e sustentável".

"Tentação"

O cacique Bepdjo também lida com divisões entre seu próprio povo. Alguns apoiam o garimpo clandestino, incluindo seu antecessor.

A disputa levou alguns habitantes da aldeia a se mudarem para o outro lado do rio.

"Muitas vezes os garimpeiros vêm falar conosco, oferecendo dinheiro, dizendo 'você vai ter carro, vai ter mulheres', é uma tentação. Um jovem que não reflete vai querer esse tipo de coisa", disse Takagmoro Kaiapo, de 25 anos, filho do ex-cacique.

Este artigo foi traduzido para português com o auxílio de uma ferramenta de IA.

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Em resumo
  • O cacique Bepdjo Mekragnotire lidera guerreiros Kayapó para expulsar garimpeiros ilegais da terra indígena Bau, no Pará, onde as tensões aumentaram devido ao alto preço do ouro.
  • A mineração ilegal na Amazônia brasileira, impulsionada pela "nova febre do ouro" e pelo crime organizado, afetou 223.000 hectares entre 2018 e 2025, com 80% sendo ilegal.
  • O governo brasileiro busca reprimir o garimpo clandestino e melhorar a rastreabilidade do ouro, mas enfrenta desafios como o contrabando e o uso de "minas fantasmas" para lavar ouro ilegal.
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