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Brasileira Lívia Aguiar de Castro é semifinalista no Redress Design Award 2022

By Marta De Divitiis

29 de abr. de 2022

Moda

A maior competição mundial de moda sustentável para talentos emergentes, o Redress Design Award, anunciou em 20 de abril os 30 semi-finalistas. Entre eles a mineira de Betim, MG, Lívia Aguiar de Castro foi uma das escolhidas sendo a única brasileira na competição. O concurso, organizado pela Redress com o patrocínio do Create Hong Kong, do Governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, tem a votação do público (até 9 de maio) e o mais votado estará como finalista ao lado de mais 9 designers, estes escolhidos por um grupo de jurados internacionais.

Serão 3 os ganhadores entre os 10 estilistas que chegarem à final e estes 3 terão a oportunidade de participar da colaboração de design com a Timberland, além de receber prêmios em dinheiro e máquinas de costura. Esse ano o Redress Design Award recebeu inscrições de 47 países e regiões. “Ano após ano, a qualidade das candidaturas que recebemos continua a melhorar. É incrível ver esses designers emergentes de todo o mundo propondo tantas soluções diversas para tornar nossa indústria circular”, compartilhou Morgane Parizot, Diretora de Educação da Redress, no release de divulgação.

Lívia, de 27 anos, é formada em Design de Moda pela Universidade Fumec e fundou em 2019 a RE. TRAMA, uma marca de acessórios desenvolvidos com upcycling de jeans. A designer concedeu uma entrevista exclusiva para a FashionUnited sobre sua carreira e o envolvimento com a sustentabilidade na moda. Confiram a seguir.

FashionUnited: como você conheceu e decidiu se inscrever no concurso?

Conheci o Redress Design Award em meio às minhas pesquisas sobre moda sustentável. A competição seleciona designers do mundo todo, que enviam coleções de moda com resíduos têxteis, roupas ou tecidos antigos ou usados e tantos outros materiais descartados e esquecidos pelas pessoas. Esse é exatamente o tipo de moda que gosto de produzir. Decidi me inscrever no prêmio porque ele representa o que a moda representa pra mim.

Como se deu sua ligação com a moda?

A moda, pra mim, tem uma dimensão cultural. Meu trabalho e a moda como acredito tem o toque do humano, do artesanal. Sempre gostei de trabalhos manuais. Meu avô por parte de pai sustentou a família fazendo tachos de cobre e quadros com fios de cobre. Por parte de mãe, minha avó era aquela figura que sempre estava bordando, pintando e fazendo fuxico. O artesanato sempre me encantou, o erro, o único, o manual, o humano, gera história e memórias.

Na minha família tinha essa coisa de ganhar roupas de parentes, e eu sempre gostei e cada vez mais me vi construindo um estilo com essas roupas usadas. E aí entra a moda. Na expressão do eu, na possibilidade de construir a própria imagem e se divertir no processo.

Antes de pensar em moda eu já me interessava em sustentabilidade e refletir sobre o mundo ao meu redor. O descarte me incomodava, pensar para onde iam os materiais pós uso, e isso me fez colecionar alguns deles, como eu via meu pai fazer, Bricolage ou um reuso na base do improviso. Eu amei estudar moda, mas o que virou a chave e me fez perceber que queria ser estilista, foi meu contato com o Fashion Revolution. Quando percebi essa dimensão política da moda e comecei a conhecer tantas marcas que trabalham a sustentabilidade como conceito, vi que também queria isso. Gosto de olhar materiais em suas cores, texturas e imaginar novas funções e aplicações. Pra mim a moda sustentável tem isso, a possibilidade de transformar uma peça velha em algo totalmente novo.

Como é a coleção que desenvolveu para o concurso?

HeritageBlue é a minha coleção para o Redress Design Award. A ideia foi criar com um material tão comum e presente na vida das pessoas, produzido tão largamente, o que indica que também é descartado.

A produção do jeans pode causar prejuízos ao meio ambiente e, ao mesmo tempo, o jeans costuma ter uma conexão única com quem usa, é mais comum as pessoas comprarem jeans novos, que tem uma modelagem que veste bem o corpo e usar por muitos anos. A peça que não sai de moda já foi reinventada tantas vezes, mas carrega essa herança, essa afetividade.

Procurei recriá-la em novas tramas com um padrão de xadrez, trazendo as texturas do jeans, já que cada calça tem uma lavagem única. Os croquis foram feitos com resíduos de jeans tramados manualmente e fios do desfiado do jeans, nos quais fiz crochê. É artesanal, feito para ser único e remendado durante anos.

O reuso do jeans nos faz refletir sobre a transformação e nossa relação com a moda, já que é uma peça que todos já tiveram no seu armário e que ainda que não tenham descartado diretamente, sem dúvida já virou descarte. Com costuras reforçadas, mistura de metais e fibras mistas, são um desafio para a reciclagem, tendo no reuso várias possibilidades.

Como se dá seu trabalho na RE.TRAMA?

A RE.TRAMA foi a continuação do meu propósito. O nome que dei à marca, foi o mesmo da minha coleção de TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, RE de re-tramar, re-construir um tecido com calças jeans, como foi o caso da minha coleção de conclusão de curso e também da minha coleção para o REDRESS.

Depois de formada, tive que entender como materializar esse conceito e em 2019, na oportunidade de expor em uma feira, decidi criar acessórios com os resíduos da minha coleção. De lá pra cá, com calças jeans doadas e bijuterias antigas, tenho construído um negócio, criando com o que seria ‘rejeitado’. Com retalhos e calças jeans antigas, botões, ilhoses e lacre de latinha, crio bijuterias originais, artesanais e modernas. Além disso, customizo acessórios e roupas com uso de resíduos. Gosto de explorar possibilidades de reuso de materiais de forma criativa e orgânica, fazendo upcycling das mais variadas formas.

Qual é a importância da sustentabilidade hoje?

É um tema importante porque diz respeito sobre todos nós, sobre a nossa sobrevivência em um mundo que poluímos e degradamos cada dia mais. Não faz mais sentido, ou nunca fez, criar roupas e produtos em massa e estimular o descarte pela lógica da obsolescência programada. O lixo não existe, não é um fim. Todo produto gera impactos ambientais e muitas das vezes sociais para serem produzidos, e quando são descartados, muitos ainda em estado próprio para uso, geram ainda mais impactos e poluição.

São necessárias soluções e produtos circulares. A moda, como outras estruturas da sociedade, precisa de mudanças, e eu quero ser parte desse movimento. Criar com algo que seria descartado é também prolongar o ciclo de vida desse objeto, evitando os impactos de seu descarte e de usar uma matéria prima virgem.

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O que esse reconhecimento significa para você (sendo semifinalista)?

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Ser semifinalista é uma grande conquista, representar o Brasil no maior concurso de moda sustentável, estar ao lado de grandes talentos e profissionais dessa indústria, que focam seus esforços em tornar a moda mais justa e menos impactante ao meio ambiente, é uma honra e grande oportunidade. Redress é uma comunidade e estar conectada com pessoas que trabalham e se desenvolvem na área de moda sustentável, gera pontes e possibilidades de desenvolver meus conceitos com a RE.TRAMA e trazer mais desse conhecimento para a moda nacional. O Redress mostra que é possível uma moda mais justa e pensar junto é a chave. Quero ser parte da engrenagem da mudança.

Redress é uma instituição de caridade ambiental pioneira que trabalha para prevenir e transformar os resíduos têxteis na indústria da moda. Seus programas dinâmicos trabalham para minimizar os impactos negativos da moda, promovendo novos modelos inovadores e impulsionando o crescimento para uma indústria mais sustentável por meio da economia circular. Trabalhando diretamente com uma ampla gama de partes interessadas, incluindo designers, fabricantes, marcas, órgãos educacionais, governo e consumidores, a Redress visa criar mudanças ambientais duradouras na moda.

Fotos: cortesia Livia Aguiar de Castro