De modelo a estilista – o arquiteto de almas
loading...
Charles Hermann nunca imaginou que a moda se tornaria seu destino. Crescendo em um bairro simples em Salvador, na Bahia, a profissão de estilista sequer fazia parte do repertório de possibilidades ao seu redor. Foi aos poucos, quase por acaso, que ele descobriu o universo que viria a transformar sua vida.
Aos 16 anos ingressou no universo da moda após ser descoberto por uma agência de modelos. Em uma época em que pouco se falava sobre as diferentes possibilidades profissionais dentro do setor, ele passou a conhecer um mercado até então distante da sua realidade.
“O menino que cresceu em Salvador nunca sonhou em ser estilista porque simplesmente não conhecia essa profissão. A moda apareceu primeiro como oportunidade, depois virou descoberta e, com o tempo, se transformou em propósito. Fui entendendo aos poucos que existia um universo inteiro acontecendo nos bastidores e me encantei pelo processo criativo”, conta.
A carreira como modelo abriu portas para conhecer diferentes países, culturas e referências estéticas, como Nova York, onde morou por um tempo. Ao longo dos anos, Charles circulou por importantes centros ligados à moda, convivendo com novas linguagens criativas e ampliando sua percepção sobre estilo, comportamento e construção de imagem.
Paralelamente, formou-se em Arquitetura e Urbanismo, formação que ainda hoje influencia diretamente seu trabalho. “A arquitetura me ensinou sobre proporção, estrutura, equilíbrio e composição. Quando desenho uma peça, não penso apenas na roupa. Penso na pessoa que vai vestir, na sua personalidade, na mensagem que ela deseja transmitir e na forma como quer ser lembrada naquele momento”, explica.
Hoje é diretor criativo e sócio da empresária Salma George, na Victoria Alta Costura, foi reconhecido com o prêmio Fashion Designer Stylist of The Year durante a temporada do Festival de Cannes, além de ter participado de um evento promovido pela ONU em Angola. Recentemente desenvolveu uma coleção exclusiva para o Mata Lab, loja de arte, beleza e design que faz parte do Complexo Matarazzo, do Rosewood Hotel. A chegada ao Mata Lab também faz parte do plano de crescimento da marca. Além da ampliação da presença em São Paulo e do início da comercialização de peças em lojas multimarcas de Goiânia, a Victoria Alta Costura, que já vestiu celebridades brasileiras em terras internacionais como Deborah Secco, Marina Ruy Barbosa e Juliana Paes, projeta expandir sua atuação para mais de cinco estados brasileiros até o fim de 2027, fortalecendo sua presença física sem abrir mão do trabalho artesanal e da produção sob medida que consolidaram sua trajetória.
O designer falou com exclusividade ao FashionUnited Brasil.
FashionUnited: sendo formado em Arquitetura, você utiliza as ferramentas do segmento na Moda Noiva e Festa?
Charles Hermann: na verdade sou um arquiteto que vive dentro de um estilista, não apenas costuro, e sim desenvolvo estruturas, recortes, drama, conceito e muito mais colocando alma nos projetos. Podemos dizer que sou o arquiteto das almas.
Como aconteceu a aproximação que resultou na coleção para o Mata Lab?
Acho que eu sou um homem que tem muita sorte com o Acaso, muitas coisas comigo acontecem assim. Ainda não havia ido ao Mata lab e quando fui pela primeira vez, estava tendo uma conversa com o diretor criativo do espaço e fui convidado a fazer parte deste projeto, que me encantou e, desde então, estou imerso neste universo novo.
A coleção do MaTa Lab conta com pret-a-porter de moda festa?
Sim lá temos nossa linha de prêt-à-porter de alta moda, mas em escala única e exclusiva. Nenhuma das peças será reproduzida ou comercializada em outro local.
Em que medida a cultura baiana influencia seu trabalho?
Minha origem humilde e a educação que tive me levaram a trabalhar com dedicação e afinco, sempre buscando fazer o meu melhor. Não acredito que entrega ruins tenham resultados bons e vivo isso no meu dia a dia.
De modelo a designer, como você vê a moda brasileira, em especial a moda festa?
São coisas muito parecidas dentro de universo muito amplo, mas com a maturidade fui aprendendo a entender que quando era modelo eu não podia expressar minha opinião e identidade, hoje eu busco deixar minha identidade aflorar no meu trabalho e isso fica bem claro para todos os meus clientes.
Como vocês chegaram a Goiânia e como funciona o Victoria Alta Costura lá? Pretendem atingir outros estados?
Na verdade, percebemos uma oportunidade em Goiânia, onde sentimos a necessidade do mercado. Até então não tínhamos pensado em abrir novos pontos de venda. A princípio estamos trabalhando conforme a necessidade dos consumidores. Inicialmente é um ponto de venda com prêt-à-porter. Estamos atendendo também algumas clientes específicas e, nesse caso, vou pessoalmente até a cidade atende-las. Quanto a outros estados já recebi algumas propostas, mas estamos em fase de análise da viabilidade.
Quais as dificuldades que você encontra quanto ao mercado de roupas de festa?
Percebo que a dificuldade é uma questão cultural. Enquanto no exterior o feito sob medida é valorizado, aqui no Brasil muitas mulheres ainda preferem pagar pouco por um modelo de vestido que viralizou na Internet a investir em peças exclusivas e feitas de forma cuidadosa e apurada.