Moda sustentável brasileira rumo à Semana de Moda de Milão

Preview em São Paulo apresentou dez marcas lideradas por mulheres que levarão sustentabilidade, design e identidade brasileira a um dos principais palcos da moda mundial
Moda
Designers e representantes do Brazilian Sustainable Fashion in Milan Créditos: Carolina C. Mesquita
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Na última quarta-feira, dia 9 de setembro, na sede da Abit – Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção – na capital paulista, convidados puderam ver um preview do Brazilian Sustainable Fashion in Milan, que levará dez marcas brasileiras, oito das quais com certificação internacional GOTS (Global Organic Textile Standard), todas lideradas por mulheres à Milão, durante a semana de moda. A iniciativa é uma promoção da Apex Brasil - Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos e da Abit com a participação da Abrimos - Associação Brasileira da Moda Sustentável. O destaque será um desfile de moda exclusivo, dia 22 de setembro, durante a semana fashion milanesa, seguida de dois dias de showroom com as marcas participantes. Foram investidos por volta de 80 mil euros, sendo que 90 por cento foi bancado pelo projeto mantido pela Abit em parceria com a ApexBrasil.

A superintendente de Marketing e Negócios da Abit, Lilian Kaddissi, explicou ao FashionUnited que o desfile tem por objetivo contar a história destas marcas nacionais, tendo a sustentabilidade como pilar central. “Mas teremos também dois dias de showroom, para que possamos fazer conexões com compradores. Temos em vista compradores tanto de grandes cadeias de varejo europeias, mas também aquelas boutiques de médio porte, que costumam comprar de marcas menores”. No entanto, embora a expectativa seja positiva, por ser a primeira edição, não estão projetando números, mas pretendem alavancar as exportações brasileiras.

Para a diretora de Negócios da ApexBrasil, Maria Paula Velloso, o encontro em São Paulo é o início de um percurso que combina visibilidade, posicionamento e oportunidades concretas de internacionalização para as marcas brasileiras. “Temos uma oportunidade concreta de posicionar o Brasil na vanguarda de uma moda mais consciente, em que sustentabilidade, criatividade e inovação se traduzem também em valor e vantagem competitiva para a indústria brasileira ", destacou Maria Paula.

Seleção partiu de um edital com aproximadamente 25 marcas

A seleção das participantes foi resultado de um processo estruturado, que buscou identificar empresas efetivamente comprometidas com práticas sustentáveis em diferentes dimensões. As propostas incluem matérias-primas de menor impacto, fibras certificadas, materiais biodegradáveis, tingimento vegetal, upcycling, reaproveitamento de resíduos, técnicas artesanais, biodiversidade e saberes tradicionais.

“Fizemos um mapeamento e lançamos um edital, a partir do qual dez marcas foram selecionadas. São empresas que efetivamente trabalham com práticas de sustentabilidade em diferentes aspectos. Temos essa preocupação porque, além de contar uma história, queremos empresas que estejam de fato comprometidas com a prática. É também a primeira vez que realizamos uma iniciativa como essa, levando um evento próprio do Brasil para Milão”, afirmou Lilian.

Sustentabilidade, reconhecimento e valor

O compromisso com a sustentabilidade envolve um trabalho que muitas vezes começa anos antes de uma coleção chegar às passarelas. Para Francisca Vieira, presidente da Abrimos e fundadora da Natural Cotton Color, uma das dez marcas selecionadas, construir uma moda verdadeiramente sustentável exige investimento, adequação de processos e reconhecimento. “Acreditamos que a sustentabilidade, para realmente se traduzir em negócios, precisa estar associada a desejo, identidade e design. Moda é criação e expressão. É essa combinação entre responsabilidade, estética e inovação que transforma propósito em valor e abre espaço para a moda brasileira no mercado internacional”, afirmou Francisca.

A Natural Cotton Color tem como protagonista o algodão orgânico naturalmente colorido, cultivado pela agricultura familiar no sertão da Paraíba e utilizado sem processo de tingimento. A produção também incorpora rendas e bordados.

Esse olhar também está presente no trabalho da consultora especializada Geni Ribeiro, responsável pela curadoria da iniciativa. Para ela, o desafio está justamente em transformar a riqueza das matérias-primas, técnicas e saberes brasileiros em produtos que aliem identidade e design e possam ocupar espaço no mercado internacional.

“Não adianta a gente ir só com a boa vontade do artesanato. O artesanato é lindo, mas existe artesanato no mundo todo. Nós temos que transformar o nosso artesanato em design e, através do design, em produtos de moda desejáveis. O que vemos aqui hoje é resultado de um trabalho de desenvolvimento de produto, modelagem e, especialmente, design, que é o que o Brasil precisa mostrar no exterior”, destacou Geni durante o evento.

A consultora acompanhou de perto processos de desenvolvimento que vão além da criação das peças e envolvem diferentes etapas da cadeia. “É preciso um trabalho completo, com design, integração da cadeia, formação de preço e desenvolvimento de produto. Acho que hoje isso ficou provado aqui e vamos ter uma experiência em Milão bastante produtiva e vitoriosa”, completou.

Ana Paula Figueiredo entre duas peças de sua marca Ana de Jour Credits: Marta De Divitiis/FashionUnited

Participam da iniciativa Alina Amaral, Ana de Jour, Camila Machado Ateliê, Celeste, Ludimila Heringer, Lybethras, Natural Cotton Color, Proposta Verde, Val Valadares e Villa Dharma. As empresas vêm de diferentes regiões do país e apresentam diferentes caminhos para uma moda que combina sustentabilidade, identidade brasileira e criação contemporânea.

Ana Paula Figueiredo, à frente da Ana de Jour, explicou que a marca existe desde 2015 e trabalha sob demanda. A matéria-prima é 100 por cento seda, assim como o linho e modal, todos certificados. Trabalha moda feminina atemporal, com detalhes artesanais e já exportou para a França e Inglaterra em projetos anteriores, em rodadas de negócios internacionais. “É um processo muito longo, de formiguinha, de ir apresentando seu produto ano a ano, com os mesmos critérios e acabamentos”, disse ao FashionUnited.

Camila Machado, estilista e artista têxtil com impressão botânica, que desenvolve a impressão botânica, com plantas tintórias. Trabalha no seu ateliê homônimo, predominantemente com noivas e figurinos.

Especializada em moda praia e resort, a mineira Celeste, de Juliana Spirandelli Rodrigues Costa, destaca o handmade por meio de várias cooperativas de várias regiões do Brasil. Trabalha com elastano em que 70 por cento dele é biodegradável e provém do milho, além de fios reciclados de garrafas PET. Além disso, sobre a base de algodão orgânico, bordadeiras mineiras detalham peças que já fizeram sucesso na Europa e Israel.

De São Paulo a Milão

O próximo passo dessa trajetória será na Itália. No dia 22 de setembro, as dez marcas apresentarão suas coleções em um desfile exclusivo no Chiostri di San Barnaba, em Milão. Nos dias 23 e 24, participarão de um showroom de negócios voltado à aproximação com compradores, parceiros e outros agentes do mercado internacional.

A escolha de Milão combina projeção internacional e oportunidade comercial. Em 2025, a Itália foi o segundo principal destino na União Europeia para as exportações brasileiras do complexo de moda, respondendo por 16,9 por cento das vendas do segmento destinadas ao bloco. Naquele ano, o Brasil exportou 42,3 milhões de dólares em produtos do complexo de moda para o mercado italiano. Entre janeiro e julho de 2026, as vendas somaram 24,4 milhões de dólares. A ApexBrasil identificou ainda 14 oportunidades comerciais para produtos do segmento no país.

A presença brasileira em Milão continua entre os dias 24 e 27 de setembro, quando 23 marcas participam da White Milano, na Zona Tortona, por meio do Fashion Label Brasil – Programa de Internacionalização da Moda Brasileira de Valor Agregado, desenvolvido pela ApexBrasil em parceria com a Abest - Associação Brasileira de Estilistas. Três marcas — Ludimila Heringer, Lybethras e Villa Dharma — estarão nas duas agendas.

Em resumo
  • Dez marcas brasileiras, lideradas por mulheres e com foco em sustentabilidade, participarão do evento "Brazilian Sustainable Fashion in Milan" durante a semana de moda de Milão, com um desfile exclusivo e dois dias de showroom.
  • A iniciativa, promovida pela ApexBrasil e Abit, visa posicionar o Brasil na vanguarda da moda consciente, combinando sustentabilidade, criatividade e inovação para impulsionar as exportações brasileiras.
  • A seleção das marcas foi rigorosa, buscando empresas comprometidas com práticas sustentáveis, e o evento em Milão representa uma oportunidade estratégica para transformar a riqueza das matérias-primas e técnicas brasileiras em produtos de design desejáveis no mercado internacional.
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Brazilian Sustainable Fashion in Milan
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