Projeto Repense Reuse: quando o descarte têxtil se converte em oportunidades
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O projeto Repense Reuse, desenvolvido pela Humana Brasil, organização fundada em 2007 e que busca o desenvolvimento sustentável, finaliza 2025 com um balanço sólido: 829 toneladas de resíduos têxteis recolhidos nas áreas em que atua, com destaque para o Nordeste, onde a iniciativa vem se consolidando como referência em reaproveitamento, geração de renda e educação para o consumo consciente. Somente na Bahia, foram 546 toneladas recolhidas em 2025, enquanto Pernambuco registrou de 107 toneladas entre maio e dezembro, números que evidenciam a escala e a capilaridade do projeto.
Vale lembrar que a indústria da moda é responsável por aproximadamente 10 por cento das emissões globais de CO₂, por alto consumo de água doce e pela geração de milhões de toneladas de resíduos sólidos. O setor é apontado por organismos internacionais como o segundo mais poluente do planeta, atrás apenas da indústria de petróleo e gás. Assim, iniciativas como o projeto acima ganham importância ímpar.
Logística reversa: estratégia ambiental e econômica
O Repense Reuse atua no pós-consumo, elo comumente negligenciado pela cadeia têxtil. Por meio da instalação de contêineres de coleta em locais de grande circulação, como centros comerciais, parques urbanos e áreas públicas, o projeto facilita o descarte responsável e estimula uma mudança cultural no destino dos resíduos têxteis.
Cada peça arrecadada passa a integrar um fluxo estruturado de triagem, reaproveitamento, revenda ou transformação criativa, reduzindo a pressão sobre aterros sanitários e evitando que resíduos cheguem a rios, canais e mares. Paralelamente a iniciativa cria oportunidades econômicas e sociais ao longo de toda a cadeia.
Para Claudia Andrade, executiva de implementação do Repense Reuse, o impacto vai além dos números. “Quando uma peça de roupa é reutilizada, evita-se não apenas o descarte de resíduos sólidos, mas também a emissão de CO₂ que seria gerada na produção de um novo item. Trabalhar a reutilização e o consumo consciente é uma ação direta no combate à crise climática,” justifica num comunicado.
Bahia consolida liderança regional
A capital baiana segue como um dos principais polos de arrecadação (no total a Bahia conta com 291 pontos de coleta), mas a expansão para cidades como Feira de Santana, importante entroncamento logístico e econômico do estado , e Lauro de Freitas ampliou significativamente o alcance da iniciativa. A presença nessas regiões facilita o acesso da população à doação responsável e fortalece a cadeia da moda circular em áreas com grande densidade urbana e comercial.
O volume de 546 toneladas recolhidas ao longo de 2025 posiciona a Bahia como referência regional em logística reversa têxtil, contribuindo diretamente para a redução da pegada ambiental da moda no estado.
Pernambuco fortalece triagem e prepara expansão comercial
Em Pernambuco, o avanço do Repense Reuse ao longo de 2025 foi marcado pela ampliação da rede de coleta e pelo fortalecimento da infraestrutura de triagem. Com 93 coletores instalados na Região Metropolitana do Recife, o projeto mobilizou a população e ampliou de forma consistente o volume de doações.
Um dos principais marcos é o Centro de Triagem no Recife, que desempenha papel estratégico. No local, as peças passam por separação técnica, garantindo que itens em bom estado sigam para reutilização e revenda, enquanto materiais sem condições de uso sejam direcionados ao reaproveitamento criativo.
Além do impacto ambiental, o centro gera empregos formais, promove capacitação e fortalece a inclusão social. Para 2026, está prevista a inauguração de uma loja “second hand” da Humana Brasil no estado, ampliando o alcance comercial da moda circular pernambucana.
Economia circular como vetor de desenvolvimento social
O balanço de 2025 reforça o Repense Reuse como um modelo estruturado de economia circular, alinhado a práticas de ESG (ambiental, social e governança). O impacto do projeto não se limita à redução de resíduos: ele movimenta uma cadeia que envolve logística, comércio, microempreendedorismo e financiamento de projetos sociais.
Segundo Claudia, a expansão territorial é parte central dessa estratégia. “Levar o Repense Reuse para diferentes estados é uma forma de descentralizar a sustentabilidade e mostrar que a mudança começa no cotidiano das pessoas, em qualquer cidade.” Além da Bahia e de Pernambuco, o projeto mantém operações no Distrito Federal e em Sergipe, reforçando sua capilaridade e capacidade de adaptação às realidades locais.
Em Aracaju (SE), a iniciativa conta com 65 PEVs - Pontos de Entrega Voluntária distribuídos pela cidade, voltados à coleta de têxteis pós-consumo. Os materiais recolhidos seguem de Aracaju para Lauro de Freitas (BA), onde passam por um processo de triagem e classificação, sendo posteriormente encaminhados para reutilização, reciclagem criativa ou co-processamento, conforme o estado e o potencial de reaproveitamento. Somente em 2025, foram descartadas 77 toneladas de têxteis por meio do sistema.
Já em Brasília (DF), a operação possui 75 pontos de arrecadação espalhados pela cidade. No mesmo período, o programa registrou a coleta de 97.002 toneladas de resíduos têxteis, reforçando a relevância da logística reversa e da gestão sustentável de resíduos sólidos no contexto urbano.
Lojas Humana: moda circular que gera renda e impacto social
As Lojas Humana são um dos pilares do ecossistema Repense Reuse. Em Salvador, os pontos de venda já se tornaram referência em moda circular e acessível, com unidades em bairros como Itapuã, Piedade, Uruguai e Cajazeiras.
Além do varejo, o modelo inclui lojas no formato atacado, que beneficiam microempreendedores locais, reduzem custos de aquisição e fortalecem economias periféricas. Toda a renda obtida com a venda das peças é direcionada para projetos sociais, ampliando o impacto positivo do ciclo de reaproveitamento.
“Transformar o descarte em oportunidade é um dos grandes desafios da moda contemporânea. A economia circular redefine o consumo, preserva recursos naturais e costura um futuro mais sustentável”, finaliza Claudia.
A Humana Povo para Povo Brasil é uma organização sem fins lucrativos que trabalha para promover o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida de pessoas e comunidades. Fundada em 2007, a organização é parte da rede global Humana People to People, presente em mais de 46 países ao redor do mundo
- O projeto Repense Reuse da Humana Brasil coletou 829 toneladas de resíduos têxteis em 2025, destacando-se no Nordeste, especialmente na Bahia e em Pernambuco, promovendo a logística reversa e o consumo consciente.
- A iniciativa atua no pós-consumo, instalando contêineres de coleta em locais de grande circulação, facilitando o descarte responsável e transformando peças em um fluxo estruturado de triagem, reaproveitamento e revenda, reduzindo o impacto ambiental.
- Além de combater a crise climática, o Repense Reuse gera oportunidades econômicas e sociais, criando empregos, promovendo capacitação e financiando projetos sociais através da venda de peças em suas Lojas Humana, que também apoiam microempreendedores.