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Renda Singeleza - a arte que transforma vidas

By Marta De Divitiis

4 de nov. de 2021

Moda

Há aproximadamente 8 anos a associação Artecer, em Paripueira, município de Maceió (AL) reúne mulheres da comunidade para aprender e desenvolver peças com a renda Singeleza, com o apoio do Sebrae - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Provavelmente oriunda de Portugal (a renda foi ensinada a Jeane Valentim dos Santos por sua avó Luzinete que, por sua vez, aprendeu com uma babá portuguesa que chegou ao Brasil depois da primeira Guerra Mundial), a renda é feita com uma agulha, um palito e linha. Delicada, pode ser usada para detalhar peças ou ser matéria-prima de vestidos, saias e saídas de praia, além de peças de decoração. É considerada um dos patrimônios culturais imateriais da Alagoas.

Quem visita a comunidade encontra uma loja pequena da entidade, comandada por Jeane. A maior parte do acervo é composto por jogos americanos, porta-guardanapos e cobertas de jarras. Mas há ainda blusas e saídas de praia. Nos fundos da casa, as artesãs se reúnem todos os dias, para trabalhar enquanto conversam. Segundo elas, a reunião, conversa e risadas, servem como uma terapia, ao mesmo tempo que a venda da produção torna-as independentes financeiramente. Durante o período de pandemia, com toda a incerteza do momento, a renda tem o poder de mudar o rumo da vida para melhor.

Entidades apostam no ensino para transformar a comunidade

O Sindivest - Sindicato do Vestuário de Alagoas, em parceria com o Sebrae e o apoio da Federação das Indústrias de Alagoas e do Senai - Serviço Nacional da Indústria, está oferecendo aulas gratuitas de costura e modelagem para essas rendeiras da associação. Mas a proposta vai mais além: "basicamente as mulheres da região de Paripueira são marisqueiras e na baixa temporada do marisco (de março a novembro) ficam sem trabalho; daí nossa ideia de ensiná-las a fazer renda”, explica Francisco Acioli, presidente do Sindivest. De acordo com o executivo, além das aulas, o Sindivest comprará a produção para que seja estoque da associação. "É um trabalho entre o Sindivest, a Federação e o Senai, além da parceria do Sebrae”, conta.

A partir do curso, que também insere informações de moda para agregar mais valor ao trabalho, haverá uma revitalização no espaço da loja. Estão oferecendo treinamento, com 15 máquinas em comodato, para que possam trabalhar e gerar renda. No momento há 10 mulheres que estão fazendo os cursos, mas a ideia é ter 60 mulheres trabalhando, incluindo as marisqueiras. “Pretendemos também catalogar, fazer um livro (passo a passo) e ensinar como se faz esse tipo de renda, para manter a tradição,” justifica Acioli.

Renda como suporte financeiro e emocional

Entre as rendeiras está Cícera Rodrigues, que mora há 5 anos em Paripueira. Segundo ela contou ao FashionUnited, longe da família, somente com seu marido e filhos, ficou em depressão e para tentar driblar o sentimento de tristeza, buscou um curso. Foi quando ela conheceu a renda, fez o curso, aprendeu a desenvolvê-la. Começou a fazer renda, especialmente após uma cirurgia que realizou e precisou ficar em repouso em casa. "Fiz um estoque e comecei a vender, “conta feliz. Hoje é instrutora de renda, ensina e fala que a renda trouxe muita autoestima e independência financeira. “Gostaria que todas as mulheres aqui de Paripueira acreditassem na renda, mas muitas ainda não acreditam.” Venho à noite trabalhar aqui e isso tem me auxiliado muito, inclusive na criação dos meus filhos. Já não tenho vontade de sair daqui e quero me estruturar e que o Artecer cresça, pois sempre foi meu sonho trabalhar com moda; aplicar renda em linho, popeline e outros tecidos”, explica. Mostra a saída de praia que fez para uma turista e que foi o maior sucesso.

A história mais emocionante é a de Rayane Laís Rosa (16 anos) que encontrou nas aulas de renda motivo para encarar as dificuldades encontradas durante a pandemia, com as aulas remotas. “Tive crises de ansiedade e minha tia e prima me trouxeram para aprender; hoje posso dizer que a Singeleza mudou muito minha vida. Estou no segundo ano do ensino secundário e tenho me sentido melhor, mais tranquila, acompanhando as aulas online com mais desenvoltura e compreensão”, explica.

Rosineide Rosa (mãe de Rayane) - faz Singeleza há mais de 7 anos e há 4 meses, após uma pausa, voltou para fazer a renda. "Venho à tarde e à noite e hoje estou bem melhor porque aqui a gente se reúne e faz a renda conversando, rindo, deixa a gente mais tranquila; O que precisamos no momento é conseguir vender e ganhar mais. É uma arte, feita à mão e como arte deve ser valorizada”, conclui confiante.

Fotos: James Silver e Artecer