Moda

Reuso e diversidade pautam o SPFWN48

by Marta De Divitiis
21 de out de 2019

Terminada a 48a. Edição do SPFW - São Paulo Fashion Week - dia 18 de outubro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no Parque do Ibirapuera em São Paulo, conclui-se que a proposta das marcas é uma moda consciente, mais sustentável, apoiada na reciclagem (upcycling) de materiais. Ao mesmo tempo, foi dada mais atenção à diversidade de etnias e tipos físicos: na passarela foram vistos muitos modelos reais e, pela primeira vez um homem transgênero desfilou no evento - o brasiliense Sam Porto. A acessibilidade também teve sua vez: numa parceria com a prefeitura de São Paulo, por meio da SMPED - Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência - a SPFW disponibilizou nos desfiles do Projeto Estufa audiodescrição para deficientes visuais feitas por jornalistas convidados.

Depois do desalento da edição passada, com o lugar escolhido distante do centro e com o entorno degradado, a perda de grandes marcas que desfilavam e a morte do modelo Tales Cota, a organização do evento retornou ao Parque do Ibirapuera, local de mais fácil acesso e houve uma diminuição do número de desfiles. Foram 26 contra os 35 da edição passada, sendo que se deve levar em conta que as marcas de moda praia só desfilam uma vez ao ano. O Projeto Estufa trouxe seis novos estilistas, alguns já presentes na edição passada, como Korshi e Victor Hugo Mattos.

Reciclagem em pauta

A necessidade de se repensar as questões ambientais levaram muitos estilistas a buscar alternativa na reutilização de materiais. Fernanda Yamamoto aproveitou a comemoração de dez anos de marca e construiu uma coleção a partir de 300 peças de todos os desfiles já realizados. “Foi um desafio resgatar o passado e dar um novo significado a tudo o que representa a nossa história; ao mesmo tempo foi um exercício de crítica, desapego e teste de novas possibilidades,”revelou Fernanda. Os modelos foram desenvolvidos com golas, cós, bolsos e demais partes das centenas de outras peças resultando em figurinos diferentes, mas nem por isso menos utilizáveis. O carioca Victor Hugo Mattos reutilizou peças de alfaiataria que ganharam uma releitura com bordados exuberantes, alguns com viés sacro. Paralelamente usou crochê em bases femininas e leves, com bordados. Fernando Miró, da Mipinta, trabalhou tendo por material outras peças prontas, inclusive sacolas de feira, transformadas em jaqueta. “Costumo dizer que mais que uma marca, a Mipinta é um laboratório de pesquisa e estamos no momento de repensar nossos princípios na moda,”explicou Miró.

Funcionalidade e luxo atemporal

A maior parte das coleções trouxe elementos funcionais como bolsos utilitários, recortes com zíperes (possibilitando peças serem transformadas, como no macacão de João Pimenta, cujas pernas continham zíperes na costura lateral que poderiam se transformar em pernas skinny ou pantalona ou ainda nas peças com mangas abotoadas). Essa funcionalidade esteve presente na Ellus, que trouxe toda uma vibração urbana em calças, saias, macacões, parcas e jaquetas. As peças utilitárias de Korshi, do Projeto Estufa, com várias alternativas de uso, continuaram quase como uma extensão da coleção anterior. Na Modem vale destacar as vestes de tricô dupla face e em Lucas Leão as parcas com bolsos cargo.

Por outro lado, modelagens amplas e bem cortadas da Beira, em calças e camisas longas, as peças com sobreposição de vestes de tela em Apartamento 03, os plissados usados com tricô em Neriage trouxeram sofisticação na medida certa e atemporal. A Hundred também veio com uma passarela leve, com tecidos fluídos, linho e modelagens confortáveis. Gloria Coelho apresentou uma coleção com cortes e caimentos perfeitos, com alguns pontos estampados. Reinaldo Lourenço fez uma mescla de elementos do Punk inglês que resultaram numa coleção extremamente luxuosa, com tecidos leves, veludo e couro. Angela Brito apresentou peças em cores fortes e assimetria, assim como a BobStore. Lilly Sarti mesclou elementos recorrentes em seu trabalho com resultado refinado, em transparências, franjas e brilhos. Os brilhos metálicos estiveram presentes também nas roupas de Lino Villaventura.

Brasilidade revisitada e novidade de apresentação

A Amapô, marca que prioriza os jeans, se inspirou em Expedito Seleiro, nordestino famoso pelas selas de couro finamente trabalhadas e a coleção trouxe muita cor, bolsos em forma de casas, jeans estampados de motivos nordestinos. O estreante Isaac Silva inspirou-se na Bahia e veio com branco total em peças com trabalhos em renda Richelieu, típica da região. Fabiana Milazzo inspirou-se no campo e apresentou tricôs e saias amplas com bordados de flores, delicados e luxuosos. PatBo apostou na inspiração de Portugal colonial produzindo peças com estampas de azulejos e bordados localizados.

A novidade maior se deu na apresentação da Another Place, no teatro Itália, no centro da cidade. Ao invés de um desfile usual, um filme tendo o ator Johnny Massaro como protagonista fazendo um pop Star dividido e vestindo vários figurinos, de calças, camisas e jaquetas. Após o filme, modelos mostraram as peças usadas pelo ator numa rápida passagem pelo palco.

Fotos: Agência Fotosite e Marcia Fasoli (Apartamento 03)