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Moda

Walter Rodrigues aponta tendências pós pandemia

By Marta De Divitiis

8 de mai. de 2020

Coordenador do núcleo de design do Inspiramais - Salão de Design e Inovação de Materiais da América Latina - Walter Rodrigues trabalha com uma equipe de 28 pessoas em pesquisas de comportamento que impactam a matéria-prima, com dois anos de antecedência (a matéria tem que ser processada, transformada em produto e daí até chegar ao lojista e ao consumidor final soma aproximadamente dois anos). Com uma visão mais ampla (muito do que a pandemia trouxe em termos de comportamento e de necessidades, Rodrigues e sua equipe já vinham apontando em palestras como por exemplo a necessidade de ter propósito, funcionalidade e conforto, entre outras coisas) o profissional tem observado e refletido sobre o que está ocorrendo no momento. O especialista deu entrevista exclusiva ao FashionUnited falando como a pandemia está afetando os desejos e tendências do consumidor.

FashionUnited: como a pandemia surpreendeu o mercado de moda?

A pandemia chegou num momento em que o mercado de moda estava colocando uma quantidade absurda de produtos nas lojas, consumidos de forma voraz. A sustentabilidade é um novo padrão de qualidade em relação ao mercado e isso é algo que nós do Inspiramais, que fazemos pesquisa tendo em vista os dois anos subsequentes, já vínhamos falando há muito tempo. Então isso nos leva a questionar como esses produtos estavam sendo produzidos, em quais situações. Estamos observando o impacto ambiental e humano que a criação, a venda e o lucro estavam causando. Não podemos esquecer que a moda é negócio, precisamos de produtos, empregos e criação, mas tudo dentro de uma proporção mais equilibrada. Tudo tem limite e a pandemia é uma ação da natureza para que acordássemos para prestar mais atenção em tudo. Ao olharmos para o cenário atual, que ninguém pensou ser possível, vemos que há uma tendência em valorizar o que temos - casa, alimentação, por exemplo - e também novos aprendizados. Esse olhar de novo para nós mesmos será construtivo, alguma experiência, por mínima que seja, resultará de tudo isso. A indústria terá que ter um olhar mais humano e isso será um passo maravilhoso para a história que estamos vivendo no século XXI.

Durante o isolamento muitas situações vieram à tona, conforme você falou na resposta acima. O que acredita que mudará?

Durante o isolamento vi o mundo por meio do Instagram e o que vi ali foi inicialmente medo e até mesmo humor seguido de compartilhamento de cuidados (a partir do momento que percebemos o quão séria era a situação) e solidariedade. Essa idéia de afago, conforto e empatia foi muito boa. Num terceiro momento houve aprendizado: gente aprendendo a cozinhar, passar roupas, cortar cabelos, aprendemos a conviver uns com os outros. Mas o que penso é que naquelas casas onde convivem muitas pessoas juntas, muita coisa mudará - as taxas de divórcio poderão aumentar, assim como o nascimento de bebês (vi numa farmácia aqui de Caxias do Sul, RS, onde estou morando, anúncio de descontos em anticoncepcionais), haverá muita mágoa e sentimentos assim também. Outro ponto é a explosão tecnológica com plataformas como o Zoom por exemplo, que nos conecta com pessoas que não costumávamos ver tanto, mas que agora nesse momento sentimos saudades.

Como observador e consumidor penso que a partir daqui o produto de moda que iremos desejar deverá ter o mesmo conforto que aquela camiseta velha que eu usei durante o período de isolamento, veremos os objetos da casa com mais atenção, ver a funcionalidade de cada item , se eles merecem estar em nossa casa. Não estamos mais falando só de roupas, mas da forma como cuido e organizo minha casa. Ficaremos mais atenciosos em relação aos detalhes (e isso já estávamos fazendo em relação aos mantimentos: hoje lemos os rótulos para ver se o produto tem muito sódio, glúten, gordura saturada) e passaremos a fazer o mesmo com a roupa: onde ela é feita, como e do que é feita. A origem e a rastreabilidade de cada item de moda ou de casa será muito importante. A higienização nos impactou demais e penso que daqui para a frente teremos que ter roupas e acessórios mais fáceis de limpar. Cada vez mais o consumidor precisa ter não só o storytelling, mas também a rastreabilidade, a transparência e por que e como cada produto é sustentável. Mas agora esse mesmo produto terá que ser encantador e necessário. Sem necessidade ninguém comprará. Mudar é no sentido da essência - qual o propósito de tudo isso. Marcas que estavam vivendo sob o impacto de ter coisas baratas e sem propósito desaparecerão. Daí a importância de se dizer “compre de produtores locais, compre marcas brasileiras;” não são mais meras palavras, mas frases com real significado.

O que estilistas e marcas devem ter em mente a partir de agora?

Propósito será agora a palavra de ordem; consumidores estão querendo saber sobre o processo, como é feito o produto, de onde ele vem. Dizemos que o lixo é um erro de design então o produto tem que ser pensado em todos os níveis para não gerar lixo. Até agora os estilistas eram mais gerentes de produtos fazendo 10 mil vestidos pretos na China para uma determinada rede de lojas. Não havia necessidade de criatividade, mas de uma boa modelagem, um ou outro detalhe e bom acabamento. A grande preocupação dele era: China; produzir 10 mil vestidos; como fariam o embarque; quando chegaria ao Brasil e como seria a distribuição nas lojas. O processo era mais importante do que o que ele estava contando por meio daquela roupa. Hoje o que precisamos, pelo menos nesse primeiro momento, é reciclar fios, tecidos e utilizar os estoques, teremos o que usar o que temos aqui porque no momento a China está fazendo só EPI - Equipamentos de Proteção Individual. Teremos que ser criativos, nos concentrar nisso e ser um diferente do outro para que o consumidor possa pensar de quem vai comprar, qual a marca que ele quer que permaneça no mercado. A criatividade irá reger tudo.

O fast fashion continuará? Como será?

O fast fashion é um sistema importante e acredito permanecerá, mas de forma diferente. Ele precisa mudar e essa mensagem ele precisa passar aos seus fornecedores e consumidores. Terão que buscar atitudes mais humanistas para atingir uma qualidade boa e um preço justo (até hoje eles praticamente “esmagam"os fornecedores e oficinas para conseguir vender na loja por aquele preço baixo.) No Brasil o fast fashion teve um papel importante porque permitiu a democratização da moda. Facilitou que pessoas de classes menos favorecidas pudessem ter produtos similares a produtos mais caros, com informações de moda. Talvez a chave seja menos produtos e muito mais valor.

O que a pandemia trouxe para você?

Na minha experiência pessoal (eu estava fora do Brasil quando tudo começou) e assim que cheguei estava com medo de ficar preso em casa numa cidade longe dos grandes centros, de sentir a cidade inicialmente descrente e depois, assustada. Percebi a importância de se olhar para tudo: para os mais velhos, que têm muito mais experiência e que estão negligenciados nesse momento; olhar para os mais jovens, principalmente as crianças (que são os consumidores futuros). Sou grato ao trabalhar com a cadeia da moda, que tem o poder de olhar para a frente. A moda já estava esgotada, precisava-se estabelecer uma nova linguagem e não prestamos atenção nisso. Nas redes sociais do Inspiramais temos buscado criar ambientes de criatividade, assertividade e de otimismo para todos os que participam, sejam expositores ou visitantes. Se todos assimilarem o carinho devotado em tudo isso sei que meu trabalho está sendo realizado. Agradeço também aos profissionais de comunicação que têm buscado saber o que as pessoas necessitam e é isso que vai construir uma nova mentalidade e uma nova forma de nós vivermos. Isso tudo irá passar e com certeza estaremos mudados, claro que não completamente, mas se mudarmos 30 por cento que seja, já estará valendo.

Fotos: Zé Roberto Muniz (Walter Rodrigues); Nick de Partee/Unsplash