Assédio sexual é uma constante nas fábricas de roupas ao redor do mundo

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Assédio sexual é uma constante nas fábricas de roupas ao redor do mundo

business newsFebruary 14, 2019by Marjorie van Elven

Menos de uma semana depois de um estudo inédito revelar os abusos sofridos por mulheres que trabalham de casa para a indústria têxtil na Índia, a organização internacional em prol dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) publicou um relatório sobre abuso sexual contra mulheres e meninas na cadeia de produção de roupas.

A HRW revelou que abusos sexuais são frequentes em fábricas de roupas na Índia, Paquistão, Camboja e Bangladesh, quatro países onde grandes empresas multinacionais de moda fabricam seus produtos. A organização conclamou as empresas de moda a fazer mais para combater tais abusos, já que 59 países ao redor do mundo não possuem nenhuma lei específica sobre assédio sexual no ambiente de trabalho. Mas, mesmo quando essas leis existem, como é o caso do Paquistão e da Índia, muitos trabalhadores não conhecem os seus direitos ou têm medo de sofrer retaliações caso denunciem seus superiores.

”As mulheres temem retaliações tanto no trabalho quanto em casa. Muitas não são casadas e vêm de famílias conservadores, por isso dependem da permissão dos familiares para trabalhar fora e contribuir para a renda da família. Caso os familiares fiquem sabendo do assédio, podem impedi-las de continuar trabalhando”, explicou a HRW em seu relatório.

O abuso sexual ocorre de diversas maneiras: comentários e piadas inapropriadas, toques não-solicitados, propostas sexuais, piscadelas e até mesmo insultos. “O abuso verbal é muito frequente nas fábricas têxteis desses países”, disse a HRW. “Trabalhadoras de todos os países que pesquisamos relataram ter sido humilhadas com palavras como ‘cachorra’, ‘burra’, ‘meretriz’ e ‘prostituta’”.

Às vezes o assédio sexual se estende até mesmo para situações fora do ambiente de trabalho. Uma trabalhadora indiana citada no relatório da HRW disse que seu supervisor liga com frequência para seu celular, fora do horário comercial, pedindo favores sexuais e prometendo folgas ou menos horas de trabalho em troca. Quando ela levou a questão ao departamento de recursos humanos da empresa, ouviu que “homens são assim mesmo” e que deveria levar a situação com bom humor.

Como combater o abuso sexual na cadeia de produção têxtil

A HRW pede que as empresas de moda apoiem uma nova convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para combater a violência de gênero e o assédio sexual no ambiente de trabalho. “Governos e empresas que de fato estejam comprometidos com a igualdade devem dar apoio a essas pessoas”, disse a HRW. “Eles devem votar a favor de uma nova convenção obrigatória da OIT em 2019, quando esta for debatida na próxima Conferência Internacional sobre Trabalho em Genebra. Isso vai estabelecer uma base para que organizações de direitos humanos ao redor do mundo cobrem de seus governos que aprovem de combate ao assédio sexual no ambiente de trabalho ou que estabelecem mecanismos para garantir que as leis existentes sejam cumpridas”.

Hoje em dia, a maioria das empresas de moda confia em auditorias independentes para verificar o ambiente de trabalho nas fábricas que contratam. De acordo com a HRW, tais auditorias não funcionam para prevenir, identificar e combater o assédio sexual. A organização entrevistou fiscais trabalhando em diversos países, os quais disseram que o ideal seria entrevistar trabalhadores de forma individual, fora do ambiente de trabalho. No entanto, as empresas de moda costumam pagar pouco por tais auditorias, forçando os fiscais a conduzir entrevistas apressadas, em grupo e dentro das fábricas. “Somos obrigados a ignorar um monte de coisas que sentimos ser um problema porque temos que pagar os salários das nossas equipes. Vamos fazer o quê? Uma auditoria de três semanas?”, disse um dos auditores entrevistados pela HRW na pesquisa.

Recomendações da HRW para empresas de moda e calçados:

  • 1. Apoiar uma nova convenção da OIT para combater o assédio sexual no ambiente de trabalho
  • 2. Tornar pública a lista de fábricas com as quais trabalham.
  • 3. Encomendar estudos frequentes sobre violência de gênero e assédio sexual no trabalho em todos os países onde operam.
  • 4. Verificar se as fábricas com as quais trabalham repassam parte das encomendas para outras fábricas ou possuem empresas menores.
  • 5. Examinar com cuidado as práticas de compra da empresa no intuito de prevenir e estagnar práticas abusivas na cadeia de produção.

Foto: Trabalhadoras numa fábrica de roupas no Camboja. © 2014 Samer Muscati/Human Rights Watch; Fonte: Human Rights Watch website, licença Creative Commons.