Mais do que provedor de tecidos a cena fashion de Taiwan busca o palco internacional

A Taipei Fashion Week cresce e designers de Taiwan buscam espaço no varejo internacional entre denim com upcycling, romantismo gótico e apresentações de líderes de torcida
Moda
Tradição encontra a estética gótica na Jenn Lee SS27 Créditos: Taipei Fashion Week
Por Ole Spötter

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Na indústria da moda, Taiwan é conhecido principalmente como fabricante de tecidos funcionais e sintéticos. Nas exportações têxteis, o país ocupa o nono lugar no ranking mundial, mas em vestuário fica apenas na 41ª posição, já que a confecção é realizada majoritariamente no Sudeste Asiático. No entanto, os negócios de tecidos também apresentam enfraquecimento. Em 2025, as exportações de têxteis e vestuário caíram 7,6 por cento, totalizando 6,22 bilhões de dólares, segundo a associação do setor TTF – Taiwan Textile Federation (Federação Têxtil de Taiwan), e a queda continuou em 2026. As competências em construção de marca e design são consideradas pela própria entidade como áreas que ainda precisam ser desenvolvidas.

É exatamente aí que a cena fashion local quer atuar. Na Taipei Fashion Week, estilistas taiwaneses buscaram conquistar o público com trabalho artesanal em denim e performances nas passarelas.

Visitantes nos corredores da área de exposição Créditos: Taipei Fashion Week

A adesão está crescendo. Em sua primeira edição no complexo cultural da antiga sede da Força Aérea, a semana de moda registrou mais de 29.000 visitantes, cerca de 43 por cento a mais do que na mesma temporada do ano anterior, conforme informou na segunda-feira o TDRI – Taiwan Design Research Institute (Instituto de Pesquisa de Design de Taiwan, em inglês), instituto estatal de design e organizador do evento desde a última temporada. Além do público local, a Fashion Week também quer convencer a mídia internacional e o varejo. Entre os mais de 70 compradores de nove países, segundo a organização, estavam também os varejistas europeus Andreas Murkudis, a loja Henrik Vibskov e a Afura Store.

O Ministério da Cultura de Taiwan, que promove a semana de moda em conjunto com o Ministério da Economia, avalia o crescimento como um sinal de que o reposicionamento está funcionando. O objetivo é ampliar a visão e aprofundar o fomento, desde a construção de perfis de marca e o fornecimento para empresas e órgãos públicos até o intercâmbio internacional. Ao lado dos estilistas, busca-se dar visibilidade a toda a força industrial de Taiwan — design e tecidos, tecnologia funcional e manufatura, além de redes de fornecimento flexíveis.

Conexão Londres

Até o momento, pouquíssimas marcas taiwanesas conseguiram dar o salto para o varejo europeu. Entre elas está a marca de streetwear Goopimade, que atualmente oferece uma colaboração com a varejista de moda britânica End Clothing. Outro exemplo é a Story Wear. A marca de upcycling especializada em denim está disponível no marketplace britânico Wolf & Badger e apresenta suas coleções durante a New York Fashion Week. Para se aproximar do mercado europeu, a grife também participou da 109ª edição da feira de moda masculina Pitti Uomo, em Florença. Em Taipé, a empresa voltada para a sustentabilidade marcou presença com uma apresentação e um estande próprio na área de exposição da semana de moda.

Story Wear SS27 Créditos: Taipei Fashion Week

Para algumas das marcas que exibiram suas coleções em Taipé, Londres parece ser o denominador comum. Wang Tzu-Hsin é uma delas. A estilista da marca Claudia Wang, fundada em 2019, apresenta suas coleções na capital taiwanesa ou na britânica, dependendo da temporada. Para a atual coleção de Primavera/Verão 2027, ela se inspirou nos dias de primavera vividos durante seu período no Reino Unido e no ensaio “Um Teto Todo Seu”, de Virginia Woolf, segundo as notas do desfile. Motivos florais encontram padronagens como poás, listras e desenhos infantis. Cores como verde-menta, amarelo-manteiga e um rosa delicado reforçam a ideia de um campo florido, enquanto tecidos leves, plissados e tops estilo bandana são sobrepostos com peças de outerwear e elementos de workwear.

Nascida em Paris e vinda de uma família de artistas, a estilista transita entre os mundos virtual e físico em suas criações. Suas pinturas são digitalizadas e depois transferidas para os looks, enquanto avatares ao fundo também apresentam a coleção.

Claudia Wang SS27 Créditos: Taipei Fashion Week

Ray Chu também seguiu para Taipé após seu desfile em Londres. Lá, apresentou sua coleção atual, “Fans Only Club”, com um espaço próprio no salão de negócios da semana de moda, onde expuseram mais de 50 marcas de moda, acessórios, calçados e lifestyle. Os looks divertidos apostam em elementos kitsch, como strass e laços descomunais incorporados à alfaiataria tradicional. Em contraponto, surgem peças mais esportivas, como regatas cavadas e trajes de banho que remetem a produtos de merchandising e destacam plantas locais, além do tema recorrente do “Taiwan Banana Club”. Nos materiais, o estilista também aposta em fibras botânicas, como tecidos de camisaria feitos de fibra de menta e malha jersey de secagem rápida produzida a partir da chamada “Icy Grass” (grama-do-gelo). Algumas peças de Prêt-à-Porter são compostas por 40 por cento de algodão e de modal cada, além de uma parcela percentual de 20 do material vegetal, que promete efeito refrescante em dias quentes e de temperaturas instáveis.

A Ray Chu está entre as poucas marcas que já têm presença internacional no atacado. Além do mercado doméstico, mercados asiáticos vizinhos, como China, Japão e Tailândia, desempenham um papel central. Entre os clientes, contudo, estão também varejistas norte-americanos, como o marketplace artístico online Ap0cene, a loja Openair em Los Angeles e a 017/Shop em Vancouver. Na Europa, a marca deu seus primeiros passos com a Storehouse, um formato de pop-up com curadoria da agência Dyelog voltado para estilistas independentes em Londres e Paris.

Contos da cripta

A Infdark também já havia apresentado sua coleção de Primavera/Verão 2027 em setembro, na semana de moda de Londres, antes de o estilista Kuo Wei retornar a Taipé um mês depois. Fundada em 2011, a marca é especializada em estrutura, corte e modelagem. Sua clientela é descrita no site da grife como rebelde, “sociopata” e interessada em fetiche. Para esse público, a marca ofereceu em Taipé uma performance entre Drácula e o videoclipe “Thriller”, de Michael Jackson. Essas influências também se refletem na coleção sombria, permeada por detalhes como amarrações, franzidos e ilhoses. Cortes assimétricos, recortes vazados, sobreposições e uma estampa inspirada nos veios do mármore evidenciam essa proposta. A estampa foi desenvolvida em parceria com a especialista taiwanesa em pedras naturais Gaode Stone (高得石材, em mandarim - nota da editora).

Infdark SS27 Créditos: Taipei Fashion Week

O clima sombrio continuou na Jenn Lee, que também desfilou em Londres em setembro. A estilista une a alfaiataria tradicional do qipao a uma estética gótica. Elementos típicos, como gola mandarim e botões de nó chinês em vestidos de seda, encontram ombros radicalmente estruturados, recortes vazados, amarrações e peças de couro. Os olhos das modelos receberam maquiagem escura. Na cartela de cores, a coleção — apresentada em um clube subterrâneo em Taipé — transita entre o vermelho tradicional e o preto.

Jenn Lee SS27 Créditos: Taipei Fashion Week

Iris Yang também tem uma inclinação para o romantismo sombrio. Em seu trabalho, o tule leve e transparente encontra corseletes e látex com apelo fetichista, unidos por uma alfaiataria forte e atenção aos detalhes. Franzidos, amarrações e motivos de cruz completam os looks. Formada pela escola de moda londrina Central Saint Martins, a estilista trouxe sua jovem marca Nocturne Key Archive pela primeira vez de Londres, cidade que escolheu para viver, de volta às suas raízes em Taiwan. Ela apresentou suas criações atuais fora do calendário oficial, em uma pop-up na Rec Taipei, loja-conceito da marca de joias taiwanesa Recovery Design.

O grande palco

Parte da performance da Infdark contou também com o grupo de líderes de torcida Power Me, para o qual a marca desenhou um novo uniforme. Líderes de torcida também marcaram presença no desfile da Inmories, onde exibiram suas coreografias sob uma cesta de basquete e entre as fileiras de convidados. A marca de streetwear colaborou com a TPBL – Taiwan Professional Basketball League (Liga Profissional de Basquete de Taiwan) e traduziu a dinâmica corporal e os movimentos dos jogadores profissionais de basquete em silhuetas, segundo o comunicado da semana de moda. Além de diferentes camisas de esporte, foram apresentadas peças de outerwear e conjuntos de duas peças de corte despojado, que uniram a proposta esportiva a silhuetas um pouco mais clássicas.

Inmories SS27 Créditos: Taipei Fashion Week

Muitas marcas pareceram aproveitar a oportunidade para encenar suas coleções com atrações performáticas. Já no desfile de abertura de Daniel Wong, a banda taiwanesa de pop-rock 831 abriu a passarela, primeiro desfilando como modelos e depois com um minishow.

Sob o título “Dress Code”, Wong brincou com as regras dos uniformes e do vestuário formal. Entre os destaques estavam ternos clássicos reinventados com estampas e babados, desconstrução e jogos de silhueta. Além disso, lenços com monogramas, inscrições com o título da coleção e estampas de cavalos foram incorporados a diversos looks ou serviram de base para vestidos fluidos, saias e tops.

Daniel Wong SS27 Créditos: Taipei Fashion Week

Denim de segunda mão

Na escolha de materiais, o denim pareceu desempenhar um papel particularmente importante, ainda que raramente como tecido virgem. A Story Wear reuniu calças jeans de 1.200 pessoas, triadas com o auxílio de inteligência artificial e transformadas em um novo denim jacquard. Já a marca de moda feminina AISH, fundada por Jean Hsia, combinou diferentes variações de denim em patchwork para criar calças jeans amplas. Claudia Wang, por sua vez, integrou o tecido apenas visualmente, como estampa trompe-l’œil.

SS27 da esquerda para a direita AISH Claudia Wang e Story Wear Créditos: Taipei Fashion Week

Materiais novos entraram em cena na colaboração da Oqliq, marca de moda voltada para performance fundada por Lin Chia-Hao e Chi Hung, com a grife de moda funcional Wisdom. A parceria uniu o denim àquilo pelo qual Taiwan é de fato conhecido: os têxteis funcionais. Foram exibidos manequins em vitrines de vidro, envolvidos em várias camadas de denim escuro que lembravam uma mistura de guerreiro e múmia.

Apresentação da colaboração entre Oqliq e Wisdom Créditos: Taipei Fashion Week

Ainda resta saber se as atrações de passarela e os experimentos em denim se converterão em pedidos. Entre os compradores internacionais, porém, o entusiasmo foi contido. Quando questionados, afirmaram ter visto diversas peças interessantes, mas que não necessariamente se encaixam em seu próprio estoque.

Os pilares fundamentais, contudo, estão presentes: dos tecidos funcionais ao know-how produtivo, passando por uma cena de design que já transita há tempos entre Taipé e Londres. A próxima oportunidade de se apresentar acontece em março, quando a Taipei Fashion Week retorna ao complexo cultural para a temporada de Outono/Inverno 2027.

O FashionUnited foi convidado a Taipé pelo TDRI.

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